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PT e PL disputam o voto das mulheres, mas se unem para não gastar com elas

_Enquanto as pré-campanhas cortejam as eleitoras, as cúpulas dos dois maiores partidos pedem ao TSE mudança no cálculo do fundo para mulheres e negros_

Por Igor Maciel  do JC

A semana produziu uma dessas coincidências que explicam a hipocrisia desse país melhor do que qualquer discurso. Enquanto a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) prepara o lançamento do plano “Brasil Por Elas”, desenhado para reduzir a desvantagem do senador entre as eleitoras, e enquanto o PT comemora a dianteira folgada de Lula (PT) nesse mesmo segmento feminino, as cúpulas dos dois partidos bateram juntas à porta do Tribunal Superior Eleitoral, braços dados e em sintonia.

O pedido, apresentado ao presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, propõe excluir as candidaturas majoritárias do cálculo da cota mínima do fundo eleitoral destinada às mulheres e pessoas negras. Em bom português, os dois maiores partidos do Brasil querem gastar menos com as candidaturas que juram defender e dizem que são importantes.

*Aritmética*

A regra atual obriga cada legenda a destinar ao menos 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha a candidaturas femininas e o mesmo percentual a candidaturas de pessoas negras. A norma não define como o dinheiro deve ser dividido entre os cargos, e é nessa fresta que mora o incômodo das tesourarias partidárias.

As campanhas majoritárias consomem fatias enormes do bolo, e a maioria dos candidatos a presidente, governador e senador é homem.

O PL terá R$ 881,7 milhões de Fundo Eleitoral e, pela regra hoje em vigor, precisará destinar cerca de R$ 264 milhões ao cumprimento das cotas para candidaturas femininas e de pessoas negras. O PT contará com R$ 615,4 milhões, dos quais ao menos R$ 184,6 milhões terão a mesma destinação. O partido ainda trabalha com a previsão de reservar cerca de R$ 120 milhões para a campanha de reeleição de Lula.

Retirar as majoritárias do cálculo, se o TSE deixar, alivia o caixa das bancadas e esvazia a política afirmativa pela porta dos fundos.

*Momento*

O calendário escolhido torna tudo mais eloquente. Flávio atravessa a pior crise da sua pré-campanha exatamente no eleitorado feminino, agravada pelo rompimento público com Michelle Bolsonaro, que deixou a presidência do PL Mulher na terça-feira (30), e pela declaração do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo de que “mulher vota mal”.

O senador tentou se descolar do aliado em um café da manhã com mulheres conservadoras em Brasília, esvaziado pelas ausências de Michelle, Damares Alves (Republicanos) e Tereza Cristina (PP). Mas é difícil dizer que funcionou.

A Quaest de junho mostra Lula com 41% das intenções de voto entre as mulheres, contra 24% do senador. O Datafolha aponta 44% a 26% no mesmo recorte. As mulheres passam da metade do eleitorado brasileiro e podem decidir a eleição. Todos os envolvidos sabem disso. O PL sabe tanto que procura uma mulher para a vice de Flávio. O PT sabe tanto que transformou a vantagem entre elas no eixo da narrativa de Lula dos últimos dias.

*Consenso*

É aqui que a ironia se completa e ganha corpo. PT e PL divergem sobre anistia, sobre o Supremo, sobre a economia e sobre a memória recente do país. Mas convergem no dinheiro fácil, fácil. Topam se juntar para não ter que dar dinheiro às mulheres candidatas como se fossem irmãos. A proposta conta ainda com o apoio do Republicanos e a simpatia de uma ala do PSD, enquanto a federação formada por PP e União Brasil resiste, menos por princípio e mais porque já desenhou suas candidaturas conforme a regra atual.

Nunes Marques determinou uma análise técnica do pedido e avalia, segundo interlocutores da Corte, que o tema é complexo demais para ser decidido às vésperas do pleito. Deve rejeitar. A prudência do ministro diz muito.

Se a proposta prosperar, mulheres e pessoas negras seguirão valendo muito nos discursos e quase nada nos repasses. O incrível é que a disputa de 2026 ganhou seu primeiro consenso suprapartidário envolvendo PT e PL. O triste é que não foi barato, o consenso entre os inimigos custa 30% do fundo eleitoral.

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