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Lipedema afeta milhões de mulheres e ainda é pouco reconhecido

Pouco conhecida e frequentemente subdiagnosticada, condição pode provocar dor, inchaço e limitações físicas, além de afetar autoestima e saúde emocional das mulheres

Pernas desproporcionais ao restante do corpo, dor ao toque, sensação de peso, inchaço e hematomas frequentes. Para muitas mulheres, esses sinais são tratados durante anos apenas como consequência do ganho de peso, sedentarismo ou uma questão estética. Por trás deles, porém, pode existir uma doença crônica ainda pouco conhecida: o lipedema.

Caracterizado pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente nos membros inferiores, o lipedema atinge predominantemente mulheres e pode comprometer a mobilidade, provocar dor e afetar significativamente a qualidade de vida. O problema é que a falta de informação, inclusive no ambiente de saúde, ainda contribui para diagnósticos tardios ou equivocados, especialmente pela confusão com obesidade e linfedema.

Os números ajudam a dimensionar uma condição que, apesar de pouco conhecida pela população, está longe de ser rara. Um estudo publicado no Jornal Vascular Brasileiro, realizado com 253 mulheres, estimou uma prevalência de 12,3% entre a população feminina brasileira. A partir da projeção populacional utilizada pelos pesquisadores, isso representaria aproximadamente 8,8 milhões de brasileiras entre 18 e 69 anos com sintomas sugestivos de lipedema. Os próprios autores da pesquisa ressaltam que se trata de uma estimativa baseada em instrumento de rastreamento, e não de milhões de diagnósticos clínicos confirmados.

Mitos

Para a médica Marcela Xavier, referência em emagrecimento, saúde digestiva, metabólica e hormonal, ampliar o conhecimento sobre a doença é fundamental para interromper um ciclo que muitas pacientes enfrentam durante anos. “Uma das questões mais delicadas do lipedema é que muitas mulheres passam muito tempo acreditando que o problema está simplesmente no peso ou na falta de esforço para emagrecer. Elas fazem dietas, treinam, perdem peso em determinadas regiões do corpo e continuam percebendo uma desproporção importante, acompanhada muitas vezes de dor e desconforto. Quando não existe informação, isso facilmente se transforma em culpa”, explica.

O impacto do lipedema não termina nos sintomas físicos. O Consenso Brasileiro de Lipedema reconhece que a doença pode afetar negativamente a saúde mental e a qualidade de vida e aponta que atrasos no diagnóstico ou tratamento estão relacionados a maior carga de sintomas e pior bem-estar emocional.

Essa dimensão ganha ainda mais peso porque o corpo feminino continua submetido a cobranças estéticas constantes. Pernas grossas, celulite acentuada, diferença de proporção entre tronco e membros inferiores e dificuldade de modificar determinadas áreas do corpo podem ser interpretadas socialmente como falta de cuidado, alimentação inadequada ou ausência de atividade física. Para quem convive com lipedema, o julgamento pode se somar à dor física.

“Existe uma diferença enorme entre orientar uma paciente sobre saúde e responsabilizá-la pelo formato do próprio corpo. Quando uma doença é confundida com desleixo ou falta de disciplina, acrescentamos sofrimento emocional a um problema que já pode causar dor e limitações físicas. A mulher precisa ser ouvida e investigada, não julgada”, destaca Marcela.

Embora lipedema e obesidade possam coexistir, são condições diferentes. O Consenso Brasileiro aponta que o índice de massa corporal (IMC), isoladamente, tem valor limitado para diferenciá-las. A avaliação do lipedema é essencialmente clínica, baseada no histórico da paciente, exame físico e exclusão de outros diagnósticos.

Entre os sinais que podem despertar atenção estão o aumento desproporcional e geralmente simétrico dos membros, dor ou sensibilidade nas regiões afetadas e alterações do tecido subcutâneo. “É importante compreender que emagrecimento e lipedema não podem ser tratados como sinônimos. A paciente precisa ser avaliada de maneira integral. Metabolismo, composição corporal, alimentação, saúde hormonal, sintomas, histórico clínico e estilo de vida fazem parte dessa investigação. O objetivo não deve ser perseguir apenas um número na balança, mas entender aquele organismo e melhorar saúde e qualidade de vida”, afirma Marcela.

INFORMAÇÃO PARA CHEGAR MAIS CEDO AO DIAGNÓSTICO – Em 2025, especialistas ligados à Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular publicaram o Consenso Brasileiro de Lipedema, construído pelo método Delphi. O documento reforça a necessidade de abordagem multidisciplinar, maior conscientização sobre a doença e combate ao subdiagnóstico e ao estigma.

No cenário internacional, um consenso da Lipedema World Alliance publicado em 2026 reuniu especialistas de 19 países e chegou a 59 recomendações consensuais sobre definição e manejo da doença. O documento reconhece que, apesar do avanço do conhecimento, ainda existem lacunas científicas importantes e diferenças nos critérios utilizados ao redor do mundo.

Para Marcela Xavier, falar mais sobre lipedema também significa mudar a maneira como mulheres que convivem com a doença enxergam o próprio corpo. “Quando uma mulher finalmente entende que determinados sintomas têm uma explicação clínica, muda também a relação que ela estabelece consigo mesma. O diagnóstico não deve servir como rótulo. Ele deve abrir caminho para cuidado, acompanhamento e escolhas terapêuticas adequadas. Informação, nesse caso, também é uma forma de acolhimento”, conclui.

Redação com assessoria Foto: divulgação

e-mail: redacao@blogdellas.com.br

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