Galo da Madrugada escolhe o caboclo de lança como tema para o Carnaval 2027
O maior bloco de rua do mundo celebra a tradição do maracatu rural em seu próximo desfile, unindo a força do frevo à estética e ancestralidade
Por Gabriella Zilma do JC
O Galo da Madrugada já definiu o enredo que levará às ruas do Centro do Recife no Sábado de Zé Pereira de 2027. Com o tema “Ao Canto do Galo, a Espora é a Lança”, a agremiação vai homenagear a figura mística e tradicional do caboclo de lança, ícone do maracatu rural, também conhecido como baque solto. A proposta busca valorizar a história e a resistência de um dos principais símbolos da cultura popular pernambucana, cuja origem remonta à virada do século XIX para o século XX nos engenhos da Zona da Mata Norte.
Para oficializar a escolha, o estandarte do bloco percorreu cerca de 70 quilômetros do Recife até a Zona da Mata Norte para convidar os grupos locais. A relação entre as duas tradições foi destacada pelo presidente da agremiação, Rômulo Meneses.
“Assim como o Galo, há quase 50 anos, defende o frevo, o caboclo de lança também é uma figura protetora que mantém viva a tradição do maracatu rural há mais de um século. Este ano, vamos transformar a espora, defesa natural do Galo, na icônica lança de fitas coloridas do caboclo”, acrescenta.
Completando 49 anos de fundação em janeiro de 2027, o bloco pretende transformar o trajeto de cerca de seis quilômetros e meio em um cenário que remete aos canaviais e à identidade dos cortadores de cana, agricultores e artesãos responsáveis por perpetuar a manifestação cultural.
“É o reconhecimento do Galo à bravura dos cortadores de cana, agricultores e artesãos, que, há várias gerações, perpetuam essa figura tão representativa da nossa cultura. No dia 06 de fevereiro, nossa celebração maior será à preservação das nossas mais ricas e puras tradições”, pontua Meneses.
O caboclo de lança é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan desde 2014 e destaca-se visualmente por sua indumentária detalhada, que inclui gola de miçangas bordadas, surrão com chocalhos de bronze nas costas, guiada enfeitada com fitas coloridas, rosto pintado, óculos escuros e o tradicional cravo na boca. A relevância da homenagem foi celebrada por lideranças da cultura popular, a exemplo do mestre Barachinha, à frente do Maracatu Estrela Dourada, de Buenos Aires.
“Somos uma cultura nobre mantida por gente pobre. Alguns, aqui, ainda trabalham na palha da cana. Outros, felizmente, aprenderam outras profissões e melhoraram suas condições de vida. Todos guerreiros, que, muitas das vezes, não têm condições nem de fazerem suas ‘arrumações’ (indumentárias), mas que se sacrificam ao máximo por amor à tradição. Sermos lembrados pelo maior bloco do mundo é de uma honra e de uma alegria sem tamanho”, avalia.
Visual e bastidores da festa na capital
A concepção artística do desfile busca dar visibilidade não apenas à figura central do maracatu rural, mas também aos profissionais que atuam nos bastidores da festividade. O carnavalesco e diretor de fantasias Francisco Câmara aponta que o trabalho envolve criadores de diferentes frentes. “Nossa proposta é também dar ênfase, no tema, a essas mãos pelas quais passam toda essa cultura, mesmo não sendo vistas: bordadores, costureiros, pessoas que fazem a franja, o chapéu de palha; todos eles constroem o carnaval”, pontua Câmara.
O artista plástico Sandro Nóbrega, responsável pelas alegorias de abertura pelo quarto ano consecutivo, adianta que a estética trará forte apelo visual. “Nosso trabalho tem se baseado, principalmente, na riqueza de cores e nos elementos da sua indumentária. Teremos muitas fitas coloridas, muito brilho e, claro, cenários que remetem ao ambiente desses guerreiros, como os canaviais e os engenhos. De uma coisa o público pode ter certeza, vai ficar muito bonito”, garante.
Prévias e percurso do desfile
Antes do desfile oficial, o Galo da Madrugada movimenta sua sede com o tradicional calendário de prévias.A temporada da Quinta no Galo tem início em 22 de outubro, com show de Gustavo Travassos e apresentações de grupos culturais.
Ao longo dos meses seguintes, o projeto recebe nomes como Almir Rouche, Som da Terra, Quinteto Violado, Spok Frevo Orquestra, Marron Brasileiro, Asas da América, Nonô Germano e Maestro Forró com a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério. Os ingressos do primeiro lote custam R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Aos sábados de janeiro, a sede também recebe os ensaios comandados pelo Bloco das Ilusões e André Rio.
No Sábado de Zé Pereira, em 6 de fevereiro de 2027, a concentração acontece a partir das 9h no Forte das Cinco Pontas, seguindo pelo roteiro tradicional que inclui a Rua Imperial, Avenida Dantas Barreto, Avenida Guararapes e dispersão na Praça da República e Rua do Imperador.
Redação com texto de Gabriella Zilma do JC Foto: Gabriella Zilma/reprodução
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