Transnordestina e tarifaço revelam a bancada que Pernambuco não tem

Diante de duas ameaças à economia de Pernambuco, deputados e senadores agiram isoladamente e não transformaram 28 mandatos em pressão política.
Por Igor Maciel do JC
A bancada federal de Pernambuco poderia ter enfrentado nesta semana dois dos principais testes do ano para a economia do estado. Na quarta-feira (15), o Tribunal de Contas da União manteve suspensas as obras físicas da Transnordestina em território pernambucano. Na quinta (16), a Federação das Indústrias de Pernambuco dimensionou os efeitos do novo tarifaço americano sobre as exportações estaduais.
Nos dois casos, houve manifestações e movimentos individuais. A bancada não apareceu como força coletiva. Não se reuniu, não apresentou uma estratégia comum e não transformou 28 mandatos numa agenda de pressão em Brasília. Isso foi muito comum ao longo dos últimos três anos e sete meses. O TCU, a Sudene e a Fiepe ocuparam o espaço. Os parlamentares pernambucanos assistiram.
Trilhos
A Transnordestina está parada em Pernambuco há mais de dez anos. Dos 544 quilômetros previstos entre Salgueiro e o Porto de Suape, 179 foram concluídos. Desde maio, uma decisão cautelar do TCU impede a execução das obras físicas. Na quarta-feira, o tribunal manteve a suspensão e liberou apenas a continuidade das licitações. Todo mundo sabe que existe pressão do Ceará para que Pernambuco não consiga seu trecho da ferrovia, porque Pecém não tem como concorrer com Suape.
A defesa da viabilidade do ramal pernambucano foi feita pela Sudene. Um estudo apresentado pelo órgão estima em R$ 4,7 bilhões o valor social do projeto. Coube a uma instituição técnica fazer a defesa que também deveria mobilizar politicamente Pernambuco. Deputados e senadores precisavam estar lá, juntos, mas poucos acompanham esses processos.
A ordem de serviço foi prometida para antes de 4 de julho, mas o prazo passou. Houve cobranças e projeções individuais de calendário, sem uma mobilização pública dos 28 representantes do estado
Café, carne e suco de laranja foram poupados depois de uma mobilização de setores empresariais, governos estaduais e interlocutores em Brasília e Washington. O açúcar nordestino continuou submetido à tarifa.
E a bancada pernambucana inerte, sem uma articulação proporcional ao prejuízo projetado pela indústria.
Ceará
O contraste apareceu na própria Transnordestina. No início de julho, Lula anunciou mais R$ 600 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste para acelerar as obras no Ceará. A previsão é colocar o primeiro segmento em operação em 2027.
A ferrovia é a mesma e o dinheiro também sai do FDNE. A diferença passa pela capacidade do Ceará de transformar o interesse da concessionária numa prioridade de todo o seu setor político.
A empresa concentrou investimentos no caminho até Pecém, onde possui interesses comerciais. A política cearense trabalhou para garantir financiamento, licenças e continuidade. Enquanto esse ramal recebe recursos e previsão de operação, o pernambucano depende de estudos, licitações e respostas ao TCU.
Dispersão
Pernambuco tem 25 deputados e três senadores distribuídos por governo, oposição e centro. A diversidade deveria ampliar os canais de negociação em Brasília. Na prática, cada mandato administra suas relações, emendas e bases eleitorais.
A pergunta a ser feita aos parlamentares pernambucanos é: em que momento o estado se tornou secundário?
A proximidade das convenções aprofundou a dispersão. A energia política está concentrada na montagem das chapas. Os partidos fazem contas sobre agosto e outubro enquanto a Transnordestina e o tarifaço exigiam respostas em julho.
A bancada não precisa concordar sobre a eleição presidencial, o governo estadual ou a composição das chapas para defender a ferrovia e os setores exportadores. O problema é que não parece haver interesse em se organizar. A bancada pernambucana não é um “time do estado”. É apenas um aglomerado de interesses difusos. E esses mesmos deputados vão pedir voto para continuar no cargo em outubro.
.Tarifas
Em entrevista à Rádio Jornal, o presidente da Fiepe, Bruno Veloso, alertou que o tarifaço pode reduzir em até 60% as exportações pernambucanas para os Estados Unidos.
A lista americana atinge açúcar, uva, inhame, peixes e sucos produzidos no estado. A manga foi a única exceção relevante para o Vale do São Francisco. O restante da fruticultura permaneceu exposto.
Na Zona da Mata, a inclusão do açúcar alcança uma cadeia que sustenta usinas, fornecedores de cana e milhares de empregos. Os efeitos podem chegar ao conjunto do setor sucroenergético e às economias municipais que dependem de sua atividade.
Redação com texto de Igor Maciel do JC Foto: Ricardo Stuckert / PR
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