Sem um partido para chamar de seu, Miguel enfrenta em 2026 drama parecido com o de 2022
Eventual mandato de senador na chapa de Raquel levaria Miguel a ampliar sua influência fora do sertão, mas falta de legenda que o sustente é empecilho
Por TEREZINHA NUNES do BlogDellas Especial para o JC
Bom de urna – em 2022, acabou em quinto lugar no primeiro turno da eleição para governador, mas teve apenas 6 mil votos a menos que o terceiro colocado, Anderson Ferreira, e 124 mil votos a menos que a governadora Raquel Lyra – o ex-prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, quase não consegue o apoio do seu partido, o União Brasil, para enfrentar a disputa naquele ano.
No dia da convenção, no Clube Internacional, o presidente da legenda, Luciano Bivar, ameaçou não celebrar o evento após desentendimento sobre a chapa para deputado federal e o deputado Mendonça Filho precisou intervir e, de forma inusitada em se tratando de evento que deveria ser festivo, leu toda a longa ata da convenção ao microfone, para que ficasse gravada e não houvesse impugnação posterior, como ameaçava Bivar. Só assim o ex-prefeito acabou candidato.
Vários partidos
Na verdade, Miguel e sua família – tradicional grupo político do Sertão do São Francisco – caminhou bem em termos partidários na época da Arena e do PDS, mas isso não se confirma na nova geração. Depois disso, além de se dividir politicamente, o ramo que permaneceu chefiado pelo ex-senador Fernando Bezerra Coelho, pai de Miguel, passou pelo PSB, MDB, DEM e atualmente está no União Brasil, embora Fernando permaneça no MDB. Mesmo forte em sua região e já tendo eleito um senador com a ajuda do governador Eduardo Campos, os Coelhos atuais não conseguiram ter uma legenda para lhes garantir espaço em eleições majoritárias estaduais.
Em 2018, Fernando Bezerra tentou assumir o MDB do ex-governador Jarbas Vasconcelos, mas foi duramente enfrentado pelo então senador. Continuou na legenda, mas sem qualquer poder de decisão. No União Brasil, Miguel Coelho conseguiu assumir a presidência estadual da legenda após a saída de Bivar, mas foi surpreendido em seguida pela criação da Federação União Progressista, que uniu este ano o PP e o União Brasil.
Em vista disso, como o PP é mais forte no Estado – tem 3 deputados federais, 10 estaduais e mais de 30 prefeitos, e o União Brasil só tem um deputado federal, um estadual e pouco mais do que uma dezena de prefeitos – coube ao Progressistas assumir a presidência estadual da Federação com poder para submeter o União Brasil às suas decisões.
Derrota na executiva
Com apenas dois dos sete votos da comissão executiva estadual do colegiado e disputando com Eduardo da Fonte a indicação para uma das vagas do Senado na chapa da governadora Raquel Lyra, Miguel perdeu para o concorrente o direito de disputar o cargo.
A governadora ainda tentou resolver o problema buscando consenso e em diálogo com a direção nacional, mas esta quinta-feira, ao reunir deputados estaduais e prefeitos do PP que a apoiam e participam do seu Governo, conseguiu que todos assumissem compromisso com sua reeleição mas também declarassem apoio a Eduardo da Fonte para o Senado, excluindo a possibilidade de apoiar Miguel.
As pesquisas para o Senado feitas até agora dão ao ex-prefeito uma vantagem, embora pequena, para Eduardo da Fonte, mas em todas as eleições que disputou, ele se destacou. Em 2014, tornou-se o deputado estadual mais jovem de Pernambuco, tendo sido eleito com 55 mil votos. Em 2016, elegeu-se prefeito de Petrolina e em 2020 foi reeleito com 76,19% dos votos válidos, credenciando-se para disputar o Governo do Estado enfrentando mais dois ex-prefeitos, Raquel Lyra, que venceu a eleição, e Anderson Ferreira.
Influência paterna
– “O problema de Miguel e sua família é a dificuldade que eles têm de formar um partido. Ter uma legenda, mesmo que menor, pode ser mais proveitoso nas alianças partidárias do que tentar uma grande, já feita e ocupada, onde não há controle”- disse a este blog um experiente deputado estadual, explicando que neste momento, se tivesse em um partido menor, era mais fácil Miguel Coelho ser o candidato ao Senado do que filiado ao União Brasil que fez Federação com o PP.
O cientista político Felipe Ferreira Lima acha que o problema vem de trás, do ex-senador Fernando Bezerra Coelho, pai de Miguel “que apesar de ser político hábil e experiente, coleciona filiações partidárias desde o início de sua carreira, sobretudo a partir da Constituinte de 1988”. Afirma que Fernando “construiu um grupo politico que restringiu-se a sua família, alçando três filhos para eleições parlamentares e majoritárias, revelando dificuldade de formar grupo partidário fora de casa”.
– Também acho – acrescenta – que por ter foco eleitoral na região de Petrolina e do sertão, Fernando, no início da carreira, sempre buscou dominar os partidos a nível local (diretórios municipais), sem tanta sede por diretórios estaduais. Com a sua ascensão para voos mais altos, sobretudo para o Senado, precisou buscar influência política para além do sertão, mas deparou-se com congestionamento de muitos caciques e poucos partidos onde, no lugar de dominar um único partido, precisava uni-los em torno de si para ser senador. Foi aí que precisou da mão amiga de Eduardo Campos para ter sucesso nas urnas a nível estadual sem necessariamente se abrigar em único partido. Isso resvalou no histórico continuado dos seus filhos”.
Com um mandato de senador na chapa de Raquel, certamente Miguel teria condições de ampliar sua influência para além do sertão, mas esbarra na falta de uma legenda que sustente sua trajetória. Ficou, até agora, girando em torno de Eduardo da Fonte, que também deseja o mesmo. E, pelo visto, não cabem os dois no mesmo espaço.
Redação com texto de Terezinha Nuines especial para o JC Foto: divulgação
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