Raquel Lyra defende apuração de fatos envolvendo Moraes e diz que “qualquer nome é menor que a instituição”
Governadora também defendeu avanço das cotas para mulheres na política e apresentou ações da gestão nas áreas de segurança, creches e metrô
A governadora de Pernambuco e candidata à reeleição pelo PSD, Raquel Lyra participou nesta quinta-feira (3) da sabatina promovida pela Folha de S.Paulo e pelo UOL. Ao longo da entrevista, tratou da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal, defendeu maior participação de mulheres na política e respondeu a questões sobre segurança pública, violência de gênero e ações de seu governo.Também voltou a comentar os cartazes apócrifos que circularam no Recife durante o fim de semana passado e a investigação sobre uma suposta rede de perfis que, segundo ela, atua contra sua candidatura. Na área de gestão, falou ainda sobre creches, metrô e apostas esportivas.
Questionada sobre as mensagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, Raquel Lyra disse considerar necessário que os fatos sejam esclarecidos e que eventuais responsáveis sejam responsabilizados.O Caso Master voltou ao debate político após a divulgação de mensagens e outros elementos extraídos do celular de Vorcaro que apontaram contatos e interações com Moraes. Os fatos passaram a gerar questionamentos e pedidos por esclarecimentos, sem que os elementos divulgados representem, por si só, comprovação de irregularidades.
“Eu vejo com preocupação o que tem acontecido no nosso país”, afirmou Raquel. Para a governadora, “qualquer nome é menor do que a instituição que representa”. Ela também defendeu que ninguém esteja acima da lei e que os fatos não sejam “colocados para debaixo do tapete”.
Sobre a possibilidade de impeachment de Moraes, defendida por Carlos Viana, senador de seu partido, a Chefe do Executivo estadual evitou um posicionamento definitivo. “Esse assunto não compete a mim. Sou governadora de Pernambuco, estou no meio de um processo eleitoral”, afirmou. Para ela, “a Constituição tem que prevalecer” e os fatos precisam ser “revelados e esclarecidos”.
Mulheres na política
A participação feminina na política foi um dos temas tratados na entrevista. Raquel lembrou que o Brasil tem atualmente apenas duas mulheres no comando de governos estaduais – ela, em Pernambuco, e Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte – e defendeu a manutenção e o avanço das cotas para candidaturas femininas.
“Somos apenas duas mulheres governadoras do Brasil. Eu sou e sempre fui favorável a cotas”, afirmou. A governadora lembrou sua passagem pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e disse que precisou de uma emenda constitucional para garantir a presença de uma mulher na Mesa Diretora. Segundo ela, a participação só foi assegurada no último dia de seu mandato como deputada estadual.
A gestora comparou a representação feminina no Brasil com a de outros países e criticou o ritmo de avanço no país. Citou México e Paquistão como exemplos de maior presença de mulheres na política e afirmou que as mulheres ocupam atualmente cerca de 18% das cadeiras do Congresso Nacional. Para ela, é necessário um “avanço permanente” das políticas de incentivo às candidaturas femininas.
A governadora também citou decisão do ministro Flávio Dino, do STF, relacionada ao reconhecimento da violência política de gênero no âmbito da Lei Maria da Penha. Ao relacionar o tema à própria trajetória, mencionou os pedidos de impeachment e uma CPI que enfrentou durante seu mandato como governadora. “Todo o tempo os homens tentam voltar para o comando”, afirmou.
Cartazes e ataques na campanha
Os cartazes apócrifos que circularam no Recife no último fim de semana também foram mencionados na sabatina. As peças fizeram referência à morte do marido de Raquel e, posteriormente, passaram a ser associadas à própria governadora, que negou qualquer participação na produção ou divulgação do material.
Raquel classificou o episódio como “algo abominável” e afirmou que o caso foi levado à Polícia Civil, à Polícia Federal e ao Ministério Público Eleitoral, que abriu investigação. Para ela, o episódio ultrapassa a disputa eleitoral e se insere em um cenário de violência política contra mulheres.
“Isso é tentar colocar uma cortina de fumaça”, afirmou. A governadora também disse que não aceita que o marido ou os filhos sejam colocados no centro do debate eleitoral. “Eu encerro isso deixando na mão da Polícia Federal.”
Sobre a existência de um suposto “gabinete do ódio” ligado ao seu governo, a governadora disse que sua campanha apresentou, ainda em fevereiro, denúncias à Justiça Eleitoral sobre uma rede de mais de 40 perfis e mais de 500 contas automatizadas que, segundo ela, seriam próximas do principal adversário, João Campos (PSB).
A governadora não apresentou, durante a sabatina, provas públicas que comprovassem a ligação das contas com o candidato. Também negou comandar qualquer estrutura de ataques nas redes. “Quem estiver passando do limite vai ter que responder na Justiça. Eu não escondo problema, eu coloco luz sobre ele”, afirmou.
Segurança pública
A segurança pública ocupou parte significativa da entrevista. Ao ser questionada sobre os índices de violência contra a mulher, Raquel contestou os dados apresentados pelos entrevistadores e afirmou que Pernambuco registra, em 2026, redução nos feminicídios e os melhores oito primeiros meses da série histórica em crimes contra a vida.
A discussão ocorre após 2025 registrar aumento da letalidade policial e de indicadores de violência no Estado. Durante a sabatina, a governadora reconheceu a alta registrada no ano passado e citou ações do programa Juntos pela Segurança, com mais de R$ 2 bilhões em investimentos e a contratação de cerca de 8 mil profissionais.
Sobre o aumento de aproximadamente 30% na letalidade provocada por agentes de segurança em 2025, a pessedista pontuou que a formação continuada dos policiais é uma das principais medidas para enfrentar o problema e mencionou a atuação da corregedoria.
Em relação às câmeras corporais, disse ter cobrado do secretário de Defesa Social (Alessandro Carvalho) o avanço da compra dos equipamentos.
Segundo ela, o processo está na fase final do termo de referência e conta com R$ 24 milhões em recursos federais. Além disso, a gestora ressaltou que Pernambuco deixou uma das últimas posições e passou à terceira colocação na execução de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública.
Creches e metrô
Na área de educação, a governadora foi questionada sobre a promessa de construção de 250 creches feita durante a campanha anterior. Reconheceu que apenas 12 ou 13 unidades foram entregues até agora, mas afirmou que o governo destinou quase R$ 2 bilhões ao programa.
A promessa apresentada durante a sabatina foi de entregar 100 creches até o fim deste ano e concluir as 250 unidades até meados de 2027. Ela também citou os resultados de Pernambuco na alfabetização na idade certa, afirmando que o Estado alcançou índice de 64% e está entre os cinco que mais avançaram no país.
Sobre o metrô do Recife, a governadora afirmou querer manter a gestão estadual do sistema, apesar da necessidade estimada de mais de R$ 6 bilhões em investimentos. A solução defendida por ela é a participação da iniciativa privada por meio de concessão. “Eu quero ser parte da solução”, afirmou.
Em respostas rápidas ao longo da entrevista, Lyra também se declarou favorável ao uso de câmeras corporais, contrária ao voto impresso e “radicalmente contra” as bets. Sobre as apostas, disse considerar a regulamentação e o combate a esse mercado especialmente importantes diante da relação que, segundo ela, existe com o crime organizado e os problemas de saúde provocados pelo jogo.
Guia eleitoral
A governadora também comentou o vídeo em que aparece em silêncio antes de falar, cena que abriu seu guia eleitoral e repercutiu nacionalmente.Disse que não foi um gesto programado, aconteceu ao fim de quatro horas de uma sabatina interna com sua equipe, quando pediram que ela respirasse e gravasse uma mensagem para Pernambuco.
Segundo ela, nem sabia que estava sendo filmada naquele momento. “Eu não sabia nem que estava sendo gravado. Eu respirei, respirei, e imaginei que nunca aquilo ia ser a abertura do guia. E foi”, afirmou.
Redação com texto Ryann Albuquerque do JC Foto: reprodução TV Jornal
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