Lula e Flávio deixam o debate sem assegurar a confiança que buscavam
Por Igor Maciel do JC
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegaram ao debate da Globo com tarefas bastante diferentes. O presidente precisava demonstrar disposição, agilidade e presença de espírito para governar por mais quatro anos. O senador precisava convencer o eleitor de que consegue se comportar com a seriedade e o equilíbrio exigidos de um presidente da República. Havia razões para os dois se preocuparem com essas impressões depois do encontro na Band.
E ambos voltaram a oferecer motivos para desconfiança, embora Flávio tenha conseguido avançar mais na apresentação de propostas e tenha apenas escorregado uma vez na estratégia.
Desenvoltura
Lula teve uma dificuldade impressionante para lidar com a dinâmica do programa. Em quase metade das oportunidades no jogo de perguntas e respostas, atrapalhou-se com as regras e encerrou antes do tempo que tinha disponível, precisando ter a atenção chamada e voltando para terminar suas falas. Isso interrompia seu raciocínio, comprometia o ritmo da participação e desviava a atenção do que pretendia dizer. Para um político com sua experiência, que conhece os assuntos do governo e participou de tantos debates, era razoável esperar mais segurança na administração do próprio tempo e das intervenções.
O efeito dessas dificuldades merece atenção porque parte do eleitorado tem dúvidas sobre seu fôlego para outro mandato. A desenvoltura diante das câmeras seria uma maneira de responder a essa preocupação. Lula precisava demonstrar que continua atento, perspicaz e capaz de conduzir uma discussão sob pressão. Acabou consumindo oportunidades preciosas tentando se entender minimamente com o funcionamento do debate.
Sua campanha terá dificuldade para encontrar nessa participação uma resposta convincente a quem esperava vê-lo mais seguro.
Futuro
A defesa das realizações dos governos petistas ofereceu a Lula um terreno conhecido. Ele tem uma trajetória para apresentar e sabe explorar as comparações que considera favoráveis. Mas havia um eleitor diante da televisão interessado também no que pretende fazer com outros quatro anos de poder. Esse eleitor merecia explicações mais claras sobre o próximo mandato e sobre como o presidente pretende enfrentar problemas que continuam presentes depois de tanto tempo de governo.
Lula mostrou firmeza quando reagiu à provocação sobre o dedo perdido em um acidente de trabalho. Identificou a agressão, cobrou respeito e exigiu desculpas. Foi um momento em que conseguiu conduzir o confronto e obrigar o adversário a recuar. A reação foi muito bem posta e poderia ser uma virada na noite, entretanto, não apagou os tropeços que prejudicaram sua apresentação ao longo da noite e se repetiram até o penúltimo bloco.
Moderação
Flávio vinha conseguindo cumprir melhor sua tarefa de parecer sério. Comparado ao candidato que foi no debate da Band, apresentou-se mais contido, procurou explicar propostas e deu espaço a assuntos que haviam sido soterrados pela agressividade do encontro anterior. Havia ali um esforço de transmitir preparo para governar. E é preciso reconhecer que, durante parte relevante do programa, esse esforço funcionou.
A melhora era perceptível. Justamente por isso, as provocações sobre a dicção e a audição de Lula, seguidas da referência aos “nove dedos”, tiveram um custo tão evidente. Foi uma escorregada feia na construção que vinha fazendo para parecer altivo e respeitoso. Flávio comprometeu uma estratégia que estava dando certo por não conseguir resistir ao deboche. E o eleitor que estava desconfiado percebe isso.
Desculpas
Ao dizer que Lula dava com uma mão e tirava com nove dedos, Flávio abriu espaço para que o presidente o confrontasse sobre o desrespeito a trabalhadores que sofrem acidentes. Precisou pedir desculpas. A retratação pode recuperar parte do prejuízo, inclusive entre eleitores que valorizam a capacidade de reconhecer um excesso. Mas também deixou registrada a dificuldade de manter a compostura que procurava demonstrar.
Para quem já desconfiava de seu comportamento, ficou a impressão de uma seriedade encenada, de um personagem que escorregou durante a apresentação. Flávio precisava transmitir confiança sobre como se comportaria no poder. Terminou o episódio tentando reparar uma agressão que ele próprio introduziu na conversa.
Tragédia
O último bloco completou a frustração. Com oito minutos livres para cada candidato, voltou a tragédia da Band. Ninguém respondia nada. Um perguntava uma coisa, o outro devolvia uma pergunta sobre outro assunto, que também não era respondida. E assim foram gastos 16 minutos. O público precisava guardar uma lista de questões abandonadas enquanto os candidatos se ocupavam da acusação seguinte.
Lula e Flávio tiveram liberdade para aprofundar propostas, esclarecer diferenças e cobrar respostas. Os dois escolheram alimentar aquela confusão. A essa altura, culpar o formato ficava difícil. Havia tempo e oportunidade. Faltou disposição para responder ao que estava sendo perguntado.
Decisão
Mesmo com esse encerramento ruim e com o prejuízo das provocações, Flávio conseguiu avançar mais em propostas e melhorar sua apresentação em relação à Band. Lula teve uma reação firme à ofensa, mas encontrou dificuldades para demonstrar a desenvoltura que seu pedido de um novo mandato exigia. O eleitor pôde ver os avanços, os tropeços e os limites de cada um. Agora é aguardar a decisão das urnas.
Redação com texto de Igor Maciel do JC Foto: Manoella Melo -Divulgação TV Globo
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