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João separa Eduardo do PSB e Lula do PT na sua narrativa eleitoral

O candidato a governador João Campos (PSB) em sabatina no Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC). – JAILTON JR./JC IMAGEM

Socialista reivindica o legado de Eduardo e a “amizade” de Lula, mas evita o governo Paulo Câmara e as críticas que dirigiu ao PT em 2020.

Por Igor Maciel do JC

Na sabatina ao Sistema Jornal do Commercio, João Campos (PSB) trabalhou com escolhas. Ele escolhe quando o passado deve ser lembrado e quando precisa ser superado. Se o assunto é Eduardo Campos, a história oferece exemplos, realizações e um legado que merece continuidade. Se a pergunta chega aos oito anos de Paulo Câmara, o candidato afirma que está na eleição para falar do futuro, não do passado. A contradição revelada na entrevista à Rádio Jornal e à TV Jornal não é acidental. Ela organiza a narrativa que João pretende levar à campanha.

E ficou evidente que o discurso do socialista tem algumas outras “seleções”. Falar de Eduardo governador e dele próprio prefeito, tudo bem. Falar do PSB, que inclui outras figuras como Paulo Câmara (que era do PSB quando foi governador) ou Geraldo Julio (PSB), nunca. Teve também a divisão PT e Lula, que ficou ainda mais evidente nas falas.

Escolha

João não divide sua estratégia narrativa entre “passado e futuro”, como tentou fazer crer. Ele divide suas falas entre aquele passado que deseja herdar e aquele pelo qual não quer responder. Na sabatina, foi questionado sobre os 16 anos de governos do PSB e especificamente sobre a gestão de Paulo Câmara, da qual participou como chefe de gabinete. Evitou avaliar o período e preferiu “olhar adiante”.

O “olhar adiante”, porém, perde a vez quando o personagem é Eduardo. Aí o candidato cita hospitais, UPAs e escolas técnicas implantados nas gestões socialistas, mas é no pai que concentra a responsabilidade pelo legado. Até para explicar como pretende buscar recursos em Brasília, contou que Eduardo dizia aos outros governadores que, além de amigo de Lula, sabia “fazer o dever de casa”.

O exemplo de competência administrativa foi apresentado como uma qualidade de Eduardo, não como um método dos governos do PSB. O partido aparece formalmente. O pai recebe a autoria política.

A seleção é compreensível. Eduardo deixou um patrimônio eleitoral ainda forte em Pernambuco. Paulo terminou oito anos de governo com o PSB derrotado e fora do segundo turno em 2022. João tenta receber o ativo do primeiro sem incorporar o passivo do segundo.

Há um limite nessa separação. João não acaba de chegar ao PSB nem pode se apresentar como alguém que assistiu à distância ao ciclo socialista. É filho de seu principal líder recente, ocupou o cargo mais importante entre os auxiliares do governo Paulo Câmara e hoje preside nacionalmente a legenda. Quando evita defender aquele governo, entrega à adversária a oportunidade de perguntar “por que Pernambuco deveria confiar novamente no partido dele”.

Amizade

O mesmo jogo aparece na relação com o PT. João não oferece prioritariamente ao eleitor uma aliança entre dois partidos. Oferece uma relação entre “duas pessoas”.

Na entrevista, afirmou ter com Lula uma relação “próxima” e “de confiança”. Disse considerá-lo “amigo”, elogiou sua dimensão humana e comparou essa proximidade com a relação institucional mantida por Raquel Lyra. Para João, existe uma diferença entre ter um conhecido e ter um amigo.

Ao resumir eleitoralmente a parceria, prometeu uma “dobradinha de João e Lula, Lula e João”. O PT desapareceu até da frase escolhida para representar a aliança. O presidente é retirado da estrutura partidária e colocado dentro de uma relação pessoal e quase familiar.

Essa separação ajuda João a responder pelos ataques feitos ao PT na eleição municipal de 2020. Naquela campanha, diante de Marília Arraes (na época pelo PT), o socialista explorou a rejeição à legenda, criticou dirigentes nacionais e advertiu para o risco de os petistas voltarem a mandar no Recife. Agora, não precisa defender o partido que atacou nem explicar plenamente a mudança. Diz que “sempre foi amigo de Lula”. E encerra o assunto.

A resposta pressupõe que Lula e PT podem ser apresentados como histórias distintas. João reivindica a popularidade do presidente em Pernambuco, mas evita carregar o peso das críticas que ele próprio dirigiu ao partido. O candidato não tenta provar que estava errado em 2020. Procura demonstrar que os ataques aos petistas nunca alcançaram Lula.

É inteligente, mas será bastante questionado sobre isso. Principalmente pela militância petista, que pode não aceitar muito bem o exercício retórico.

Heranças

Eduardo serve para João não precisar defender Paulo Câmara. Lula serve para João não precisar desculpar-se pelo que disse do PT. Nos dois casos, uma relação pessoal positiva ocupa o espaço de uma história partidária negativa.

Esse movimento também permite que João seja “herdeiro” e “renovador” ao mesmo tempo. É herdeiro quando fala de Eduardo, mas candidato do futuro quando é confrontado com Paulo. É aliado histórico quando apresenta a amizade com Lula, mas preserva distância quando a lembrança chega à campanha contra o PT.

João não quer que a eleição seja um julgamento dos 16 anos do PSB, embora queira que ela seja uma celebração dos anos de Eduardo Campos. As duas coisas pertencem ao passado. A diferença é que uma oferece votos e a outra cobra explicações. O candidato não abandona o retrovisor. Apenas escolhe o que aparece nele.

Redação com texto de Igor Maciel do JC Foto: reprodução

e-mail: redacao@blogdellas.com.br

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