Fernando Castilho: 50 anos de jornalismo, notícias e emoção

Aos 70 anos de idade, Fernando Castilho celebra cinco décadas de atividade desde que cruzou as portas do Diário da Noite em 15 de março de 1976
Por Rafael Carvalheira do JC
Chegar a meio século de atuação em uma profissão tão relevante quanto o jornalismo é um marco para pouquíssimos. Quando se trata de Fernando Castilho, titular da coluna JC Negócios, do Jornal do Commercio, esses 50 anos ininterruptos contam não apenas a história de um jornalista, mas a evolução da própria imprensa brasileira. Aos 70 anos de idade e celebrando cinco décadas de atividade desde que cruzou as portas do Diário da Noite em 15 de março de 1976, Castilho coleciona passagens por redações históricas, como Jornal do Brasil, Diario de Pernambuco, O Globo e o próprio JC.
Em uma entrevista marcada por emoção e reflexões profundas, Castilho abriu o coração sobre a vida longe dos teclados, as antigas redações barulhentas e enfumaçadas por cigarro, os desafios de explicar o Plano Real para o Brasil, as sete vezes em que se reinventou e o papel ético e social do jornalista.
Abaixo, os principais trechos dessa conversa, divididos pelos temas que guiam a mente e o coração deste mestre do jornalismo pernambucano.
VIDA PESSOAL E ROTINA
“Olha, eu sou um torcedor do Náutico. Eu sou uma pessoa que gosta de comer, de frequentar restaurante. Eu me atrevo na cozinha em algumas receitas, mas fundamentalmente eu sou uma pessoa que tem uma vida normal. Eu não tenho hobby e não pratico esportes. A partir de 40 anos, quando eu tive um susto e achei que estava sofrendo um infarto, comecei a caminhar.
Eu sou um caminhante, não um corredor. Faço uma média de quatro dias por semana, uma caminhada de 1 hora. Como eu moro em Boa Viagem, eu sempre tenho a perspectiva de caminhar perto da praia. Fora do jornalismo, eu gosto de viajar, de caminhar por cidades. E normalmente eu tenho minha vida familiar de pais e de filhos, casado com a mesma mulher há mais de 40 anos, tem filhos e sou uma pessoa extremamente discreta nesse sentido.”
O BARULHO DAS PRIMEIRAS REDAÇÕES
“Quando eu entrei na redação pela primeira vez, na Rua do Imperador, o barulho era mesmo infernal porque nós tínhamos vários jornalistas batendo na máquina Olivetti 80. As redações naquela época eram muito barulhentas. Primeiro pela questão das máquinas de escrever, segundo porque no fundo da redação tinha o barulho das agências transmissoras de notícias, os chamados teletipos, que eram constantemente aquela batida direta.
E tinha uma coisa impensável hoje: se fumava dentro da redação, se falava muito alto e tirava-se muita brincadeira com os colegas. Eu sempre me considerei o que a gente chama de rato de redação. Queria saber como era o processo de diagramação, edição e não raro eu descia para a oficina para ver como era feita a matéria, no tempo da famosa linotipo.”
O PAPEL DIDÁTICO NO PLANO REAL
“A edição do Plano Real exigiu do jornalismo brasileiro um papel didático que poucas vezes foi cobrado da imprensa. Não estávamos mudando apenas um plano de economia, nós estávamos mudando um sistema econômico que exigia uma nova moeda. Passamos três meses explicando a URV e que teríamos uma nova moeda acompanhada de uma nova família de cédulas.
Os jornais imprimiram páginas ilustrando as cédulas novas e as pessoas queriam comparar no meio da rua. Talvez o maior ganho do real, entre 1995 e 2025, tenha sido sedimentar o conceito de que inflação é uma coisa ruim, que a gente tem que resistir a ela e não pode ser tolerada. Ensinou uma geração inteira a prestar atenção nisso todo dia.”
A CHEGADA DA INTERNET E A REINVENÇÃO
Eu costumo dizer o seguinte, que em 50 anos eu acho que eu me reinventei umas sete vezes. Fui de uma redação totalmente analógica para os primeiros computadores, que davam a vantagem da barra de rolagem e de corrigir o texto. Até que chega a internet, e quando ela chega, muda o paradigma. A sensação de que o jornal chegava às 6 horas da manhã perdeu o sentido.
O leitor agora é quase um crítico e tem a capacidade, que não tinha no passado, de fazer comparação em tempo real. Isso exige uma tensão redobrada. O jornalismo tem que ser de precisão. Você não tem mais o direito de botar uma informação que não seja checada e checável.”
ÉTICA, ERRO E RELAÇÃO COM FONTES
“O fato de você ser jornalista e poder escrever não lhe dá o direito de escrever aquilo que você quer e defender aquilo que não é bom para a sociedade. Ser ético é ser honesto consigo mesmo. Eu adoto algumas coisas: quando erro, não tem essa de inventar outra notícia. A coluna JC Negócios diz ‘essa informação está errada’.
É preciso ter autoridade e humildade para dizer: erramos. Ninguém se diminui quando reconhece o erro. Outra coisa é a distância regulamentar dos entrevistados. No Jornal do Commercio, todo mundo é ‘o senhor’. O fato de eu ter 70 anos não me dá o direito de conversar com qualquer fonte chamando de você. O jornalista não deve dizer como profissional de imprensa aquilo que não tiver a coragem de dizer como um cavalheiro.”
ARREPENDIMENTOS E A ESCOLHA POR PERNAMBUCO
“Eu gostaria de ter viajado mais. Eu não consegui realizar os meus sonhos de viajante. Segundo, eu não consegui aprender a escrever como eu gostaria de escrever, embora aos 60 anos eu tenha voltado para a universidade para um mestrado para me sentir mais equipado intelectualmente. E uma coisa que eu gostaria de ter feito era ter aprendido a falar fluentemente o inglês e o espanhol, e eu nunca consegui.
Tive oportunidade para ir para Salvador, para São Paulo, mas eu tomei a decisão de fazer sucesso na minha terra. Eu posso dizer que em 50 anos eu fiquei desempregado poucos dias.”
A EMOÇÃO DE ESCREVER E DE CONTAR HISTÓRIAS
“A única coisa que nunca mudou desde o primeiro dia é a emoção da notícia, da informação. Eu ainda vibro com uma boa matéria. Fazer jornalismo é contar boas histórias. É muito ruim escrever um texto asséptico, inodoro, que o cara quando vai ler não tem emoção. Eu procuro escrever com emoção. Até criei expressões. Quando eu apuro bem uma história, começo o texto assim: ‘Foi assim’.
A melhor notícia é quando ela impacta positivamente, quando você contribui para melhorar a sociedade. Aprendi com o jornalista Ivan Maurício a resumir num conceito simples, ‘cocada de coco do coqueiro da praia’. Sempre procuro escrever economia de modo que todo mundo leia, entenda e goste.”
Assista a entrevista completa:
Redação com texto de Rafel Carvalheira compartilhado do JC em 19/04/2026 Foto: Gabriel Ferrteira/JC imagem
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