Quaest: Fuga de Flávio Bolsonaro e postura golpista diante das eleições são rejeitadas por 60% dos brasileiros e dividem a direita
Levantamento inédito após o segundo turno aponta desgaste do bolsonarismo, reprovação da viagem aos EUA e espaço para novos nomes na oposição
por JC
A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos menos de 48 horas após a derrota eleitoral e os seus questionamentos sobre o resultado das urnas nas Eleições 2026 são repudiados por seis em cada dez brasileiros. Os dados fazem parte do levantamento inédito “O Brasil depois das urnas”, realizado pelo instituto Quaest, que aponta fissuras evidentes dentro do próprio campo da direita. O racha interno mostra um enfraquecimento da hegemonia do clã político e sinaliza a abertura de espaço para lideranças alternativas na condução da oposição nacional.
De acordo com o levantamento, 62% dos entrevistados consideram a fuga para o exterior uma atitude errada, contra apenas 29% que a julgam acertada. Entre os brasileiros em geral, o placar é de 56% a 35% a favor da leitura de que a viagem representa uma tentativa de escapar de investigações no Supremo Tribunal Federal (STF). Os processos em tramitação apuram os casos Master — envolvendo R$ 134 milhões solicitados para a cinebiografia “Dark horse” — e suspeitas de lavagem de dinheiro ligadas ao advogado Willer Tomaz.
FISSURAS NA DIREITA E REJEIÇÃO AO QUESTIONAMENTO ELEITORAL

O recorte político da pesquisa expõe o descompasso entre as alas do conservadorismo. Na chamada direita não bolsonarista, há um empate técnico quanto à viagem: 46% validam a saída e 45% a criticam. Além disso, 51% desse segmento consideram que o parlamentar busca refúgio contra perseguição política, enquanto 42% enxergam tentativa de fuga do Judiciário.
Para o cientista político e diretor da Quaest, Felipe Nunes, a unidade construída pelo antipetismo durante o pleito começou a se romper logo após o fechamento das urnas. O pesquisador aponta, em entrevista ao jornal O Globo, que a recusa do resultado não é tolerada pelos setores não bolsonaristas, o que viabiliza um canal de diálogo democrático com forças moderadas e abre caminho para outras figuras, visto que essa parcela historicamente preferia Tarcísio de Freitas a Flávio como candidato à Presidência da República.
A postura do senador perante o resultado também amarga índices desfavoráveis: 59% dos brasileiros são contrários ao seu discurso, e apenas 34% o endossam. Esse contingente de um terço de apoio irrestrito coincide exatamente com a parcela que respaldou a reação de Jair Bolsonaro em 2022, indicando uma base ideológica leal, porém minoritária e com dificuldade para alcançar maiorias eleitorais.
DESEMPENHO INFERIOR AO DO PAI

A comparação direta com a postura adotada por Jair Bolsonaro evidencia uma desidratação na mobilização da base da extrema direita, aponta a pesquisa. Em 2022, 41% dos entrevistados consideraram que o então presidente se portou bem após a derrota e 45% que agiu mal. Já no caso de Flávio, apenas 25% aprovam o seu comportamento pós-derrota, enquanto 60% o reprovam. Até mesmo entre os seus próprios eleitores de segundo turno, 21% desaprovam o não reconhecimento do resultado e 24% declaram que o candidato se comportou mal.
Por outro lado, o núcleo radicalizado no bolsonarismo permanece estável: 30% dos eleitores brasileiros acreditam que o pleito foi fraudado (ante 29% registrados há quatro anos), número que sobe para 64% entre os votantes de Flávio.
Em relação aos sentimentos após o desfecho eleitoral, as reações foram bem demarcadas entre os campos:
Lulistas: 40% manifestaram alegria.
Esquerda não lulista: o sentimento predominante foi de alívio (34%), seguido por alegria (32%).
Direita não bolsonarista: a sensação dominante foi a decepção (27%).
Bolsonaristas: declararam-se majoritariamente revoltados (26%).
Independentes: registraram visões divididas, sem nenhuma classificação acima de 20%.
Redação com assessoria Fotos: reprpodução JC
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