Padre Vito recebe cidadania pernambucana em celebração à democracia

Homenagem proposta pelo deputado João Paulo Lima (PT) reconheceu a trajetória de resistência do sacerdote e seu compromisso com o povo pernambucano
Marcada pelo resgate da memória e pela celebração da democracia, a entrega do Título Honorífico de Cidadão Pernambucano ao Padre Vito Miracapillo reuniu lideranças políticas, religiosas e comunitárias na noite desta segunda-feira (21), no Auditório Sérgio Guerra, na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). A homenagem foi proposta pelo deputado estadual João Paulo Lima (PT) e aprovada por unanimidade pela Casa.
Italiano, Padre Vito chegou ao Brasil em 1975 e desenvolveu seu trabalho pastoral junto às comunidades da Mata Sul, especialmente na Diocese de Palmares. Em Ribeirão, tornou-se referência na defesa dos trabalhadores rurais e das famílias mais pobres. Em 1980, durante a ditadura militar, recusou-se a celebrar uma missa em homenagem ao Dia da Independência por considerar que não havia independência para um povo submetido à pobreza e privado de direitos. Por isso foi perseguido e expulso do país naquele mesmo ano.
Somente em 1993, após a revogação do decreto de expulsão pelo presidente Itamar Franco, Padre Vito pôde retornar ao Brasil como turista. Em 2011, a presidenta Dilma Rousseff concedeu-lhe o visto de permanência, reparando, ainda que tardiamente, uma injustiça que o manteve afastado do país durante treze anos. Em seu pronunciamento, João Paulo destacou que “a história do Padre Vito se confunde com a própria história da luta pela democracia e pela dignidade no Brasil”.
A homenagem também carrega um forte simbolismo histórico. Em 1980, a Alepe aprovou uma indicação ao Ministério da Justiça em defesa da expulsão do sacerdote. Mais de quatro décadas depois, a Casa reconheceu, por unanimidade, sua contribuição para Pernambuco. João Paulo também fez questão de citar os 11 ministros que integraram o julgamento do Supremo Tribunal Federal que rejeitou o habeas corpus apresentado em defesa de Padre Vito e manteve o decreto de expulsão.
“O título que esta Casa entrega hoje não é apenas uma honraria. É o reconhecimento formal de algo que o povo pernambucano sabe há muito tempo: que o senhor pertence a esta terra e a esta gente”, declarou João Paulo. Um dos momentos mais emocionantes ocorreu no encerramento do pronunciamento, quando o deputado lembrou o Padre Reginaldo Veloso e recitou versos escritos contra a expulsão de Padre Vito. O refrão “Vito, Vito, Vitória!” foi recebido com aplausos pelos presentes.
Ao agradecer a homenagem, Padre Vito relembrou a perseguição e sua saída do Brasil. “A memória não se apaga. O bem comum e a vida do povo é o que formam a política, que nasce da esperança do povo”, afirmou. Emocionado, recordou a frase que marcou sua despedida: “De hoje em diante, a gente se distancia, mas não se separa”.
O senador do Parlamento italiano e presidente dos Italianos Residentes na América Latina, Fábio Porta, destacou o significado da homenagem para a preservação da história. “Sem memória não há futuro, e a democracia exige memória”, declarou, ao defender que as trajetórias do povo e das pessoas mais oprimidas não sejam esquecidas.
A programação contou ainda com apresentações do Coral Vozes de Pernambuco e do Grupo Vozes da Resistência, das Comunidades Eclesiais de Base do Morro da Conceição. Ao concluir a homenagem, João Paulo ressaltou que a cidadania pernambucana confirma um vínculo construído ao longo de décadas. “Que esta cidadania seja, mais do que um título, a confirmação de uma casa que sempre foi sua”, afirmou.
Redação com assessoria Foto: divulgação
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