Uzoutro, o inimigo imaginário – Por Nelson Mota*

 

Como bom feministo, tenho seguido atentamente páginas e perfis nas redes de mulheres 50+

Adorei ver a amiga Susana Vieira dizendo que não liga de ser chamada de “velha escrota” e vivendo seus 80 anos plenamente, estilo Susana, supertalentosa, inteligente, divertidíssima, desbocada, e meio doidinha, é claro; fala umas barbaridadezinhas de vez em quando, ouve quem quiser, mas sempre foi corajosa e responsável por suas escolhas.

Claro que escrotice não tem idade, assim como inveja, ressentimento e estupidez, aliás, li outro dia que o que move o capitalismo não é a ambição ou a ganância, é a inveja… pensem nisso.

O velho patriarcado esperneia e agoniza lentamente, por seus próprios erros e burrices, como deixar de usar plenamente a força produtiva feminina nas ciências, nas artes, na política, na religião, em todos os campos de atividade que não dependam só de força bruta mas de potência intelectual. Poderiam usá-las a seu favor, para facilitar sua vida, para melhorar a produção, para ganhar mais dinheiro, mas preferiram diminuir, oprimir e reprimir as mulheres, por puro orgulho e estupidez machista, atrasando a vida de todo mundo.

Como bom feministo, tenho seguido atentamente várias páginas e perfis nas redes de mulheres 50+ que discutem, informam e inspiram, compartilhando experiências e desmoralizando preconceitos de idade, de beleza, de corpo, de alma, a maioria fruto podre do machismo, da opressão e do desconhecimento da mulher.

Não é a básica pauta política feminista da liberdade, da independência e do respeito, dos direitos e cidadania, mas no processo de envelhecimento das mulheres, enquanto os homens podem envelhecer à vontade e se autorizam tudo, mesmo os papéis mais ridículos, mas são implacáveis, e patéticos, quando falam de mulheres mais vividas, esquecendo que a expectativa de vida delas é de 80 anos e a deles, de 73… deve ser porque são mais frágeis e mais burras, né? rsrs. Susana diria que clitóris não envelhece. rsrs.

Um dos melhores é da jornalista gaúcha Pati Pontalti, que também mantém a dupla @aspatricias com a xará Parenza, com posts muito inteligentes, com humor e sinceridade, sobre as questões da mulher madura, com milhares de seguidoras. Mas também servem para homens 50+ interessados em mulheres, que deveriam acompanhar para aprender, para melhorar e serem mais felizes. Pati falou outro dia um neologismo divertido para definir esse ser imaginário e maligno que inferniza a vida das pessoas: o que “uzoutro” vai achar, julgar, comentar, fofocar? E o quanto isso vai interferir na sua vida real? Zero. Além de não existir, uzoutro só tem o poder que lhe dão.

Claro, pessoas públicas, artistas vivem de colocar o seu trabalho em julgamento, mas quem se exibe só em busca de aprovação e popularidade, alimenta e empodera uzoutro e não pode reclamar. Sem uzoutro elxs não existem.

O existencialismo, para principiantes, diz que a existência real precede a nossa essência humana, e seu grande filósofo Jean-Paul Sartre descobriu e revelou que “o inferno são os outros”.

*Nelson Mota é jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista brasileiro. É colunista de o Globo . Texto compartilhado pelo blogdellas.

E-mail: redacao@blogdellas.com.br

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