Uma orquestra só para pessoas com alguma deficiência

A arte existe porque a vida não basta. Ferreira Gullar estava certo quando, inspirado, falou essa máxima que reflete o que promove a Orquestra Danubia de Budapeste, somente composta por surdos. A cada apresentação, eles, músicos talentosíssimos, encantam e se emocionam ao tocarem (e ouvirem ao seu modo) Beethoven e sua Quinta Sinfonia.
É música. É inclusão. Seja lá fora ou aqui no nosso país, boas iniciativas assim devem ser apoiadas. E uma orquestra só para pessoas com alguma deficiência é um convite a abraçarmos a diferença. Alguém há de falar que essa é uma orquestra diferente. Pode ser. E também diferenciada.
A ideia do produtor cultural Igor Cayres, 46 anos, lá em São Paulo, é oferecer oportunidades para músicos talentosos com algum tipo de deficiência. De lá, do Rio, de Fortaleza, João pessoa. De qualquer lugar. Se você assim se define, mora no Recife, por que não participar? Por que não tentar?
As inscrições para os interessados já estão abertas e seguem em praticamente um pouco mais de duas semanas, até o dia 11 de abril no site da Orquestra Parassinfônica de São Paulo (opesp.com.br). Podem se inscrever músicos e musicistas entre 18 e 48 anos – com deficiência comprovada e conhecimento musical em instrumentos de corda, flautas, oboés, clarinetes, fagotes, trompetes, trompas e percussões.
Para facilitar a pré-seleção das inscrições será online. Serão escolhidas até 90 pessoas e este grupo seguirá para a fase de audições presenciais. Na próxima etapa, 30 serão selecionados para quatro meses de ensaios sob regência do maestro Roberto Tibiriçá. Por fim o que para muitos é um sonho: integrar o concerto que ocupará o Theatro Municipal de São Paulo. Os selecionados recebem uma bolsa de meio salário para participar do projeto que ganhou ajuda da Lei Rouanet. Sabemos ser pouco, mas parece ajudar. O sonho de Cayres é que a orquestra não se encerre com essa apresentação do Theatro Municipal.
Ele aposta em ganhar agenda artística e manter o corpo permanentemente. Deseja ainda que a Orquestra atraía sensibilidades como a do maestro João Carlos Martins e Herbert Vianna e outros músicos que tenham entendimento das dificuldades do artista com mobilidade reduzida. “Nosso objetivo é promover o empoderamento de músicos e musicistas com deficiência para que essas pessoas possam desempenhar seu protagonismo na sociedade”, diz o rosto da divulgação da futura orquestra, a violinista e pianista Naiala.
Ela acompanhará a orquestra em futuras apresentações, como convidada. Naiala, que usa prótese na perna esquerda porque o joelho não se desenvolveu como o resto do corpo lembra que “existem muitos músicos talentosos que são deficientes. Mas não existem muitas oportunidades. Daí a importância dessa iniciativa: Ter uma orquestra com pessoas com deficiência é uma oportunidade de superar isso.


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