Sobre a ansiedade quando se vai assar um bolo e montar um palanque- por Igor Maciel

Mesmo em evento controlado, movimento antecipado para segurar aliados provoca reação no PT e amplia incerteza sobre consistência da aliança eleitoral.
Cena Política por Igor Maciel do JC
Imagine que você vai preparar um bolo. Basicamente, a primeira coisa a ser feita é pensar nos ingredientes, depois no modo de preparo e, por fim, no tempo necessário ao forno até ficar pronto. E este é o momento mais sensível. Quem já tentou sabe que o tempo conta, a temperatura conta e se você não tiver paciência e ficar abrindo a porta pra olhar a massa, pode estragar o resultado.
Em 2022, o PSB e o PT fizeram uma aliança. Como sempre, a discussão foi grande, o caminho foi longo e tortuoso, na época Marília Arraes recusou ser candidata pelo PT ao Senado na chapa dos socialistas, dizendo a Lula (PT) que não confiava no PSB. O PT então escolheu Teresa Leitão (PT) e a colocou como candidata ao Senado, tendo Danilo Cabral (PSB) como candidato ao governo.
Base insatisfeita
Na época, a base do PT ficou insatisfeita com o arranjo. A militância petista estava pronta para uma candidatura de Humberto Costa (PT) para governador e Marília senadora, mas foi frustrada após interferência de João Campos (PSB), que exigiu a desistência dele em troca de aceitar Geraldo Alckmin no PSB para ser vice na chapa lulista.
Frustrar militância e chatear grupos políticos que já estão alinhados com você é igual ficar abrindo a tampa do forno. O bolo murcha, e não tem fermento que salve, porque a oscilação de temperatura quebra o cozimento.
Resultado eleitoral
Naquele ano, como resultado da aliança forçada, ainda mais com um candidato que os petistas rejeitavam por ter votado a favor do impeachment de Dilma (PT), o resultado foi que Teresa, a “senadora de Lula”, teve mais de dois milhões de votos. E Danilo, o candidato do PSB e cabeça da chapa de Teresa, teve apenas oitocentos mil.
Na hora de votar, de fazer barulho, a militância do PT cumpriu sua obrigação de eleger o nome do partido, mas ao menos 60% dos eleitores da senadora daquele ano preferiram votar em outros candidatos ao governo e ignorar o socialista.
Ficar abrindo a tampa do forno e chatear a militância é coisa de ansioso. E isso tem consequências.
Precipitação
João Campos apresentou na quarta-feira (18) uma chapa que não estava completa como se estivesse completa. Isso deixou o dia inteiro bastante confuso.
O nome do PT para o Senado, justamente Humberto Costa, mandou avisar que não tinha sido consultado e estava viajando pelo Sertão. O presidente do partido em Pernambuco, Carlos Veras (PT), reclamou que o o PT ainda não tinha tomado a decisão de apoiar João e “era preciso respeitar o tempo do PT”.
Datas
Depois disso, o PSB que já havia espalhado a intenção de fazer um anúncio oficial na quinta-feira (19), às 19h, começou a desconversar dizendo a quem perguntasse que a data e hora foi “invenção de blogueiros”. Sim, uma produtora ouviu isso de um integrante do PSB na quinta pela manhã.
No fim do dia, outra informação: o anúncio da chapa será na sexta-feira (20), ao meio-dia. No dia do anúncio, pela manhã, o senador Humberto Costa, que João Campos anunciou como um de seus candidatos ao Senado, estava viajando pelo interior. Em entrevista a uma rádio de Serra Talhada, foi categórico: “Eu que estou sendo cogitado para compor essa chapa, mas não estarei lá [no anúncio feito por João Campos]. O partido vai discutir”.
Reação do PT
Essa confusão, causada pela pressa de Campos em anunciar logo a chapa para garantir Marília Arraes no palanque e evitar que ela fosse para Raquel Lyra (como quase foi), terminou sendo motivo de insatisfação para vários setores do PT em Pernambuco.
Ter anunciado a chapa tentando forçar uma decisão dos petistas que ainda estão se reunindo em plenárias pelo estado foi visto como desrespeito. E isso, tal qual ficar abrindo a porta do forno, tem consequências.
Basta lembrar da lição de 2022: chatear militância do PT não vai tirar votos do PT, mas pode tirar votos do próprio João no futuro.
Evento
O evento foi bem curioso porque lançamento de pré-candidatura sem chapa definida e completa é uma inovação, mas chamou bastante atenção e movimentou o mundo político na sexta-feira.
A convenção informal teve direito a discurso de Marília Arraes (PDT), demonstrando hoje sua plena confiança no PSB com o qual parecia nunca ter tido qualquer rusga. Outra curiosidade foi que telões foram montados mas evitou-se que eles exibissem fotos da chapa, para não criar mais problemas com o PT. E João Campos, tentando reduzir o impacto da precipitação inicial, procurou repetir nas entrevistas que o evento era do PSB, do PDT e do Republicanos, mas que “estava respeitando o PT”.
Agora é esperar pra ver como vai ficar o bolo.
Redação com texto de Igor Maciel -Coluna Cena Política do JC compartilhado em 21/03/2026
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