Reprodução Assistida: da primeira FIV aos desafios do futuro – Por Altina Castelo Branco

Desde o nascimento de Louise Brown (1978), o mundo acompanha os avanços científicos, os dilemas éticos e os impactos sociais da reprodução assistida. As novas tecnologias transformaram o planejamento familiar, oferecendo alternativas seguras e eficazes para pessoas e casais que enfrentam a infertilidade ou desejam ampliar suas possibilidades reprodutivas.
Ao longo das últimas décadas, os tratamentos evoluíram. Hoje, fazem parte da prática procedimentos como o congelamento de óvulos e embriões, a injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI) e os testes genéticos embrionários. Estima-se que mais de 12 milhões de crianças já tenham nascido por meio da fertilização in vitro (FIV) em todo o mundo, consolidando a técnica como uma das maiores conquistas da medicina reprodutiva.
O marco dessa trajetória foi na Inglaterra, quando Robert Edwards e Patrick Steptoe realizaram a primeira FIV bem-sucedida. Pela primeira vez, foi possível unir óvulo e espermatozoide fora do corpo humano e transferir o embrião ao útero. No Brasil, o primeiro nascimento por FIV ocorreu em 1984, representando o início de uma história de avanços que colocou o país entre as principais referências latino-americanas na área.
Desde então, a reprodução assistida passou por uma verdadeira revolução. A ICSI ampliou as possibilidades de tratamento da infertilidade masculina. A vitrificação permitiu preservar óvulos e embriões com altas taxas de sobrevivência após o descongelamento, oferecendo maior flexibilidade reprodutiva. Já os testes genéticos pré-implantacionais ajudam a identificar alterações cromossômicas e doenças hereditárias antes da transferência embrionária, com mais segurança e melhores resultados gestacionais.
A ciência passou a atender diferentes configurações familiares. Casais homoafetivos, pessoas solteiras e mulheres que optam por adiar a maternidade encontram hoje alternativas mais acessíveis. A gestação por substituição, conhecida como “barriga solidária”, representa outra opção prevista pelas normas brasileiras.
No país, a reprodução assistida é regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e monitorada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ao mesmo tempo em que a área avança, surgem discussões éticas e bioéticas, envolvendo temas como o destino dos embriões excedentes, limites dos testes genéticos e o acesso equitativo às tecnologias reprodutivas.
É nesse contexto de evolução que Pernambuco sediará, pela primeira vez, o 30º Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida (CBRA2026), de 9 a 12 de setembro, no Recife Expo Center. O evento reunirá especialistas nacionais e internacionais para discutir os avanços científicos da área sob o tema “Cuidado Integral da Saúde Reprodutiva, no Hoje”. Essa escolha reflete uma compreensão cada vez mais presente na medicina reprodutiva: embora a ciência e a tecnologia avancem em ritmo acelerado, o cuidado deve permanecer centrado no paciente. Mais do que tratar a infertilidade, é fundamental compreender a história, os objetivos reprodutivos, as condições clínicas e as particularidades de cada indivíduo ou família que busca assistência.
Maior congresso de reprodução assistida da América Latina, o CBRA 2026 colocará Pernambuco no centro das discussões sobre o futuro da medicina reprodutiva.
Em um cenário de rápidas transformações científicas, refletir sobre inovação, ética e acesso às tecnologias reprodutivas torna-se não apenas oportuno, mas essencial. Afinal, o verdadeiro avanço da reprodução assistida não será medido apenas pelas novas tecnologias disponíveis, mas pela capacidade de oferecer um cuidado cada vez mais humano, seguro e acessível.
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*Altina Castelo Branco é ginecologista e obstetra, especialista em reprodução assistida e presidente do CBRA2026
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