Quando tudo vira bloco, perde-se a história – Por Alexandre Acioli*

É preciso nomear corretamente as nossas agremiações carnavalescas.
Brincar, participar e viver o Carnaval de Pernambuco é uma experiência que vai muito além de “ouvir contar” ou consumir superficialmente aquilo que aparece nos noticiários, blogs ou redes sociais. A vivência real da festa revela um universo complexo, diverso e profundamente enraizado na cultura popular. E é justamente por desconhecimento dessa riqueza que muitos veículos de comunicação (inclusive nacionais) insistem em chamar genericamente de “blocos” todo tipo de agremiação que desfila nas ruas. Reduzir essa pluralidade ao termo “bloco” distorce a história, empobrece a memória cultural e limita a compreensão de uma das manifestações mais diversas do Brasil.
É essencial lembrar, especialmente para quem chega de fora, que Pernambuco é um verdadeiro celeiro cultural. Sim, temos blocos — e blocos extraordinários, como os líricos — mas o Carnaval da Terra dos Altos Coqueiros é muito mais do que isso. A festa reúne La Ursas, clubes, troças, caboclinhos, maracatus de baque virado e baque solto, tribos de índios, afoxés, ursos, bois, bonecos gigantes, escolas de samba e inúmeras outras expressões. Cada uma delas traz consigo história, estética, musicalidade, modos de organização e funções simbólicas distintas.
No interior do Estado, essa diversidade se amplia com manifestações que não costumam circular na Região Metropolitana, mas que são fundamentais para compreender o imaginário carnavalesco pernambucano. Em Bezerros, os papangus formam um dos mais tradicionais desfiles de mascarados do país. Em Triunfo, os caretas tomam as ruas com suas roupas vibrantes e performances acrobáticas. Em Pesqueira, os caiporas preservam uma tradição única. Em Salgueiro, a Bicharada do Mestre Jaime mantém viva uma herança centenária. Somam-se a isso folguedos como o fandango, o cavalo marinho, grupos de coco, ciranda e outras expressões populares que, embora não sejam carnavalescas em sua origem, integram a festa ao longo das décadas.
Quando se chama tudo isso de “bloco”, apaga-se a singularidade dessas manifestações. É por isso que é errado, por exemplo, dizer “o bloco do Preto Velho”, “o bloco do Urso Cascudo do Amparo”, “o bloco do Homem da Meia-Noite”, “o bloco da Pitombeira dos Quatro Cantos” ou “o bloco da Burra do Rosário”. Todos esses são patrimônios culturais olindenses, mas cada qual pertence a uma categoria própria. O Preto Velho é Escola de Samba; o Urso Cascudo integra a categoria dos Ursos; o Homem da Meia-Noite é Clube de Boneco; a Pitombeira dos Quatro Cantos é troça; e a Burra do Rosário é Clube de Frevo — uma das forças tradicionais mais antigas e emblemáticas de Olinda.
O bloco lírico, frequentemente confundido com qualquer outra agremiação comum, possui identidade própria: surgiu nos anos 1920, nos bairros centrais do Recife; utiliza o flabelo como abre-alas, enquanto clubes e troças usam estandartes; tem orquestra de pau e corda (não de metais) e seu cortejo é acompanhado por corais femininos; suas alas desfilam com abajures e figurinos de estética característica. É uma manifestação que, além de musical, possui forte componente poético e visual.
Já os clubes carnavalescos, muito mais antigos, datam do fim do século XIX e se organizam de forma mais tradicional. As troças, por outro lado, geralmente nascem de episódios curiosos, brincadeiras ou histórias locais e têm como marca a irreverência, o improviso e o desfile diurno. Ursos, bois, maracatus, caboclinhos e afoxés também têm regras próprias de indumentária, ritmo, cortejo e simbologia — e conhecê-las é parte essencial da vivência da festa.
Cada manifestação possui uma história, uma lógica interna, um ritmo, uma estética e até horários específicos para desfilar. São essas diferenças que tornam o Carnaval de Pernambuco um dos mais complexos, variados e ricos do mundo. E são elas que precisam ser mostradas (e corretamente nomeadas) aos foliões mais jovens e aos turistas, para que não regressem aos seus estados acreditando, ou repetindo, que tudo o que viram na folia pernambucana não passa de “blocos”.
Ao reconhecer e valorizar cada agremiação por aquilo que ela realmente é, preservamos a memória, respeitamos a tradição e fortalecemos a identidade cultural de um dos carnavais mais vibrantes e singulares do planeta.
*Alexandre Acioli é cientista Social, jornalista e produtor cultural
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