Notícias

Quaest divulga pesquisa sobre frevo e registra 46 orquestras e 322 grupos de frevo no Recife e em Olinda

Orquestras de Frevo: cultura, território e sustentabilidade em Recife e Olinda

Por Marina Siqueira | Diretora de Sustentabilidade e Riscos

Quando o Carnaval termina e as ruas de Recife e Olinda voltam à rotina, o Frevo não silencia. Ele continua vivo nos ensaios, nas partituras, nos instrumentos carregados de história, nas apresentações e festas ao longo do ano e, principalmente, nas Orquestras de Frevo: conjunto de músicos de alta performance que mantêm essa tradição pulsando o ano inteiro, seja nos holofotes, seja nos bastidores.

Mas quem são essas orquestras? Como se organizam? O que significa o Frevo para Pernambuco e para o Brasil? Quais desafios enfrentam para seguir existindo? Foi para responder a essas perguntas que a Quaest, em parceria com o YouTube Brasil, realizou a pesquisa As Orquestras de Frevo de Recife e Olinda, um estudo inédito que lança luz sobre quem sustenta, na prática, um dos maiores patrimônios culturais do Brasil.

Por que olhar para as Orquestras de Frevo?

O Frevo é reconhecido mundialmente. É patrimônio, identidade, orgulho. Mas nenhuma manifestação cultural se mantém apenas por reconhecimento simbólico. Ela precisa de pessoas, trabalho, recursos, organização e políticas públicas que façam sentido para quem vive essa realidade no dia a dia.

As Orquestras de Frevo estão no centro desse ecossistema e compõem a diversidade riquíssima da cultura brasileira. Elas são o coração do Carnaval Pernambucano e seu som é exportado para as demais regiões do Brasil, formam músicos, ocupam ruas e palcos, movimentam a economia local e mantêm viva uma tradição que atravessa gerações.

Ainda assim, é um gênero musical pouco valorizado e visibilizado, mas completamente técnico, performático e expressão de identidade. Portanto, é relevante compreender, valorizar e apoiar, seja como iniciativa de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) como promovido pelo YouTube, seja por meio do fortalecimento das políticas públicas culturais.

Como a Quaest se conecta ao Frevo?

Por sua vocação de pesquisar, interpretar e entender o Brasil através da ciência e dos dados, a Quaest e o YouTube fizeram a parceria para mapear e compreender profundamente as Orquestras de Frevo de Recife e Olinda, analisando sua estrutura, funcionamento, fontes de financiamento, condições de trabalho e desafios para a sustentabilidade.

A parceria entre a Quaest e o YouTube parte do entendimento de que a cultura precisa ser pensada a partir de dados, evidências e escuta dos próprios agentes culturais. Ao apoiar a realização desta pesquisa, o YouTube contribui para ampliar o conhecimento sobre um patrimônio cultural vivo, ajudando a conectar tradição, território e novas formas de visibilidade e circulação cultural no ambiente digital. Além do mais, a pesquisa é ponto de partida para as demais ações que o YouTube pretende realizar para apoiar o Frevo em Pernambuco.

Metodologia

A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com entrevistas em profundidade realizadas com 20 músicos, maestros e maestrinas de Recife e Olinda. A seleção dos participantes seguiu a técnica de Snowball (Bola de Neve), partindo de orquestras tradicionais e estruturadas, que indicaram outros agentes relevantes do ecossistema do Frevo.

Além das entrevistas, a Quaest realizou um mapeamento amplo de 322 grupos musicais de Frevo, organizando um banco de dados inédito sobre a distribuição territorial, formas de atuação, vínculos institucionais e inserção digital das orquestras.

Essa combinação entre escuta profunda e sistematização de dados permitiu compreender o Frevo a partir de quem o constrói cotidianamente, e não apenas de quem o consome.

 

A geografia do Frevo: concentração, pertencimento e circulação

Através dos dados primários e secundários, este foi o universo identificado de grupos musicais e orquestras.

O estudo revela que o Frevo possui uma geografia cultural muito bem definida, fortemente concentrada em Recife e Olinda, mas com ramificações que ultrapassam os limites do Carnaval e dos grandes eventos.

A cartografia foi elaborada coletivamente por 20 maestros, maestrinas e musicistas entrevistados nesta pesquisa. Foram mapeados 35 lugares que pulsam o Frevo, principalmente no período carnavaleso: áreas de apresentação, sedes, zonas quentes do Frevo e pontos de encontro.

 

O mapa é digital e interativo, você pode acessar por este link.

Navegar por estes pontos é percorrer uma malha de afetos e de técnica, que conecta o rigor das orquestras à efervescência das ruas e bares. O ponto de convergência mais evidente entre todos os entrevistados é a centralidade do Recife Antigo e do Sítio Histórico de Olinda como o eixo gravitacional de suas operações. Essas duas regiões, além de serem o testemunho mais antigo da construção dessas cidades, aparecem como as zonas de maior calor de atuação das orquestras mapeadas.

Dos bastidores à centralidade: orquestras como infraestrutura do Carnaval

O Frevo só existe em sua forma plena com a presença física dos músicos. Não há substituto tecnológico ou simbólico para que essa atuação gere a energia e o pulso vibrante.

Os resultados revelam que as Orquestras de Frevo são estruturas altamente complexas, que operam de forma contínua muito além do período carnavalesco. Entre os principais achados, destacam-se:

  • Centralidade das orquestras na preservação do Frevo, tanto na execução musical quanto na formação de novos músicos;
  • Desafios e instabilidade financeira, com forte dependência de contratações sazonais e recursos públicos;
  • Sobrecarga das lideranças, especialmente maestros e maestrinas, que acumulam funções artísticas, administrativas e de negociação;
  • Desigualdade de gênero, ainda presentes no acesso à liderança e às oportunidades;
  • Forte enraizamento territorial, com atuação direta na dinâmica cultural e econômica das cidades.

As mulheres e o Frevo

O Frevo nasce da diversidade. Sua musicalidade, sua ocupação do espaço e sua força simbólica são resultado direto de uma tradição construída majoritariamente por homens e mulheres negros, de origem popular, profundamente conectados aos territórios de Recife e Olinda.

Nossa pesquisa apontou uma predominância masculina entre os integrantes das orquestras, padrão que se repete tanto entre músicos quanto entre regentes. A presença feminina, embora existente, aparece em proporção menor, indicando que a participação das mulheres no Frevo orquestral ainda é minoritária quando comparada à dos homens. De um total de 46 Orquestras de Frevo, apenas 4 são lideradas por maestrinas.

 

Compartilhar

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.