Publicidade não é brincadeira quando o assunto é a criança

*Simone Santana

 

Toda criança traz em si um mundo de possibilidades. As experiências vividas desde a barriga tecem identidade, sonhos, talentos e também traumas, medos e condicionamentos. É essa costura de vivências que forma indivíduos únicos. Criança tem mais é que experimentar, brincando, o que a vida tem a oferecer. É assim que elas criam suas singularidades. Mas em um mundo em que a publicidade norteia padrões, as meninas e meninos recebem estímulos limitantes. Crescem com a visão de que há poucas formas de agir, de consumir, de ser.

 

Hoje é o aniversário de oito anos da Resolução 163/2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que proíbe a publicidade voltada para as crianças no Brasil. Porém, no meio digital, a norma não funciona na prática. Segundo o Instituto Alana, as estratégias de publicidade para as crianças seguem em constante transformação, acompanhando o ritmo e a tendência das redes. Para burlar a legislação, as marcas criam propagandas camufladas de conteúdo de entretenimento.


O desafio de conter essa violação dos direitos das crianças é global. Em recente discurso no congresso americano, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, revelou sua preocupação com o apelo ao consumo infantil nas redes sociais. Para ele, as plataformas devem ser responsabilizadas pelo que chamou de “experimentos lucrativos” dirigidos às crianças.

 

De acordo com o projeto Criança e Consumo, as empresas não só usam as redes para falar com as crianças, como também para coletar suas informações pessoais e assim desenvolver anúncios voltados para o que atrai sua atenção, os espaços que frequentam, as pessoas com quem convivem. Até completar 13 anos de idade, uma criança tem cerca de 72 milhões de pontos de dados coletados.

 

Percebe como essa prática tem o poder de influenciar o desenvolvimento infantil? Em grande parte, é por meio da publicidade que as novas gerações estão aprendendo a lidar com sentimentos, desejos, frustrações, expectativas e com a própria imagem. Enquanto que para o desenvolvimento pleno são necessários estímulos a um amadurecimento imaterial, diverso e complexo, as crianças estão mais expostas a narrativas rasas e imperativas: compre, goste, queira.

 

Mas o verbo da infância não é imperativo. Esses comandos publicitários destoam da natureza livre e criativa das crianças. E nós, como sociedade, temos o dever de cuidar para que os estímulos que chegam até elas contribuam para o seu pleno desenvolvimento.

 

*Simone Santana é pediatra, deputada estadual e coordenadora da Frente Parlamentar pelos Direitos da Primeira Infância.

 

Foto: Simone Santana (Deyvid França)


E-mail: simone.santana@alepe.pe.gov.br

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