Pesquisas eleitorais e modalidades de apuração – Por Maurício Costa Romão*

 

No pleito presidencial da Argentina de 2024 as pesquisas eleitorais foram realizadas predominantemente através da modalidade online, algo como seis a sete em cada dez, vindo a seguir as feitas por telefone e, por último, as conduzidas face a face.

A revolução tecnológica em curso nas comunicações e informações explica a crescente aderência à abordagem via internet, potencializada pela crise pandêmica recente e o consequente afastamento social. O crescimento desta modalidade deu-se especialmente em detrimento da tradicional investigação face a face, sempre confrontada com as conhecidas restrições de contato pessoal e com o alto custo de sua realização.  

Nessa esteira, basta dizer que em 2023 as pesquisas online já eram a segunda modalidade mais usada no mundo todo (77%), vindo atrás dos levantamentos presenciais (91%), e ultrapassando os inquéritos por telefones celulares (68%), conforme se depreende dos dados desfilados na tabela 1 a seguir, que oferece uma visão geral da utilização dos modos de investigação das pesquisas eleitorais em escala global.
Note-se na tabela que as pesquisas online na Europa (92%, reportados pelos pesquisadores da região) são mais empregadas que a própria face a face, diferindo do resto do mundo. É também na Europa que o uso de levantamentos por telefone celular e fixo é maior (88%).

Inobstante o uso disseminado da modalidade online no mundo (crescimento de 80% entre 2017 e 2023, segundo a pesquisa WAPOR/ESOMAR citada nas tabelas), os institutos brasileiros não têm aderido à investigação eleitoral por esse intermédio. São raros os casos constatados.

De fato, apesar de ser um dos países que se destaca pela quantidade – e pela reconhecida qualidade – de realização de pesquisas eleitorais (no pleito de 2022 as pesquisas nacionais registradas no TSE para presidente foram em número de 1.195, ao passo que as registradas para governador somaram 1.779), pouquíssimos institutos vem usando o modo online no Brasil. Nesta área digital tem predominado até o momento, e quase isoladamente, o Instituto Atlas/Intel.

Os motivos dessa aparente resistência carecem ser explicados pelas hostes especializadas, mas os dados do IBGE de 2023 de que 22,4 milhões de pessoas (com idade acima de 10 anos) não têm acesso à internet podem estar entre os fatores determinantes. Registre-se, inobstante, que o mesmo IBGE detectou que nada menos que 92,5% dos domicílios possuem acesso à internet.

Ademais da sobressalência cada vez maior da pesquisa online na maioria dos países, está em contínuo crescimento também o uso combinado (mix) de modalidades.

Com efeito, através da combinação de modos de inquerir respondentes os institutos de pesquisas buscam maximizar eficiência de tempo, recursos humanos e financeiros na apuração de dados e neutralizar as desvantagens de cada método individualmente. A tabela abaixo apresenta dados de uso misto de pesquisas em escala global e por grandes regiões.

A combinação de modalidades de pesquisas é largamente empregada hoje em dia no mundo todo, conforme se depreende da tabela 2. Em escala global 87% dos pesquisadores fazem combinação de modalidades nos inquéritos eleitorais. Este percentual chega a 100% na América do Norte & Caribe.

Vê-se ainda na tabela 2 que, com exceção da Europa, o modo face a face é o mais usado como base primária da investigação, sendo suplementado por outras modalidades. De fato, enquanto na Europa apenas 34% dos pesquisadores inqueridos reportaram valer-se da investigação face a face como base principal dos levantamentos, esses percentuais são bem maiores no mundo (64%), na América do Norte & Caribe (71%) e na América Latina (53%).

É interessante observar que a América Latina registra 32% de não uso de combinação de modalidades, enquanto na Europa esse percentual é de apenas 14%, um pouco acima da escala global, que é de 13%. Por outro lado, na América do Norte & Caribe todos os respondentes utilizavam alguma forma de combinação de modalidades.

Essa é outra questão que chama a atenção para o Brasil. Por aqui somente agora estão aparecendo alguns institutos de pesquisa empregando mix de modalidades (Ipespe, Ipsos, França, entre outros)

O espaço está aberto à investigação das causas dessa indiferença pelo blend de modalidades, mas, possivelmente, um dos motivos repousa no fato de que as entidades de pesquisa locais se sentem mais à vontade e seguras com a utilização de apenas um único método – telefônico ou face a face – em que confiam e com o qual já estão acostumadas a trabalhar, do que enveredar por campos desconhecidos que envolvem combinações complexas de modalidades de apuração.

O apelo a um eventual upgrade na qualidade das estimativas advindo da junção de métodos não tem sensibilizado tanto as entidades de pesquisa do país, pelo menos até o momento.
Enfim,

o emprego da diversas modalidades envolve considerar as vantagens e desvantagens de cada abordagem. Contudo, qualquer que seja a escolha do método de apuração, a excelência do levantamento vai depender sempre da qualidade do desenho da amostra e de sua representatividade.

*Maurício Costa Romão é Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. mauricio-romao@uol.com.br

E-mail: redacao@blogdellas.com.br

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