O sofrimento invisível da mulher no climatério – Por Simone Santana*

Juliana foi a um show e, assim que chegou no evento, travou. Sentiu uma irritação abrupta, palpitações e uma necessidade urgente de voltar para casa. Rafaela sofre há meses com ondas de calor, sente um cansaço desmedido e já precisou ser socorrida com crise de ansiedade. Fátima anda desmotivada e nota que vem perdendo a paciência com muita facilidade. A vida está mais difícil para ela, sem motivo aparente. Mudei os nomes das mulheres, mas esses são casos reais, que chegaram a mim em menos de uma semana. Os sintomas relatados são alguns dos sinais do climatério, um termo ainda pouco conhecido para uma fase delicada da vida das mulheres.
Há uma confusão naturalizada entre menopausa e climatério. A primeira, mais famosa, é a última menstruação, cuja identificação é retrospectiva, e acontece na faixa etária de 45 a 55 anos. Com o decorrer dos meses, a mulher identifica que aquele ciclo lá atrás foi o último. E esta ausência da menstruação é o sinal mais evidente do fim da fertilidade da mulher. Já o climatério abrange uma fase mais longa de transição do ciclo reprodutivo para o não reprodutivo. Esse período dura anos, é capaz de virar vidas de cabeça para baixo, e boa parte das mulheres não sabe de onde vêm todos esses sintomas. E pior. Quase não há políticas públicas de saúde específicas para acolher e cuidar das cidadãs nesta situação.
Estou atravessando o climatério e posso dizer que, mesmo com acesso a informações, tratamento adequado e acolhimento de minha rede de apoio, não é fácil. Agora imagine como sofre, nesta fase, uma mulher sem instrução, com uma demanda de trabalho exaustiva e a cobrança para ser a única cuidadora da família? Afinal, essa é a realidade de grande parcela das brasileiras, que são chefes de família, dependentes do SUS e têm poucos direitos trabalhistas assegurados.
Foi pensando nelas que propusemos o Projeto de Lei que deu origem à Semana de Conscientização sobre o Climatério, que a partir desse ano será celebrada sempre na última semana de março. A lógica patriarcal que rege nossa sociedade invisibilizou problemas que só agora vêm à tona. Há uma década, não se falava em feminicídio, por exemplo. Pobreza menstrual é outro termo que só ganhou notoriedade há pouco. Hoje, a dor das mulheres que vivem o climatério ainda não chama a atenção da sociedade. Seus sintomas ainda são vistos por muitos como frescura, mimimi ou preguiça.
Vamos bater nessa tecla e jogar luz sobre o assunto até que haja políticas públicas necessárias para que as mulheres vivam todas as suas fases com mais leveza e conhecimento sobre seus corpos.
*Simone Santana é médica e deputada estadual
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