O rastro de sangue do ódio virtual contra as mulheres – Por Adriana Vasconcelos*

 

A melhor homenagem que as mulheres poderiam receber neste mês de março não são flores ou mesuras, mas o aprimoramento da legislação.

Já passou da hora de admitirmos o óbvio: a misoginia no Brasil precisa ser criminalizada com o mesmo rigor aplicado ao racismo e à homofobia. Não podemos mais nos dar ao luxo de tratar incentivos públicos à violência como “mera opinião”, especialmente quando esses discursos são impulsionados por algoritmos e ganham escala industrial no ambiente digital.

O exemplo mais recente é aterrador. Uma trend viralizada por perfis da chamada “machosfera” no TikTok, sob a legenda “Treinando caso ela diga não”, simulava socos, chutes e até facadas como resposta “aceitável” à rejeição afetiva. Embora a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Polícia Federal tenham agido para derrubar os perfis e abrir inquéritos, o dano cultural já está em curso. O ódio destilado em comunidades virtuais está sendo transportado, com precisão cirúrgica, para a vida real.

A ideologia da “Cultura Red Pill”, baseada na misoginia e no ódio às mulheres, não é um fenômeno inofensivo de nicho, mas virou uma fábrica de agressores. Enquanto a sociedade engatinha na reação, crescem o número de fóruns, grupos, influenciadores e comunidades masculinas que pregam o “despertar” para a necessidade de os homens retomarem o controle absoluto sobre as mulheres.

Dados do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelam uma realidade perversa: 90% dos canais misóginos no YouTube seguem ativos. Entre 2024 e 2025, embora o número de canais tenha caído levemente, o volume de vídeos saltou de 105 mil para 130 mil, e o exército de inscritos cresceu de 19 milhões para 23 milhões. O ódio está se profissionalizando.

A demora na criminalização tem efeitos práticos e letais. Somente na última semana, o noticiário nacional registrou o “não” feminino sendo punido com barbárie:

No Rio de Janeiro (Maricá): Uma mulher sofreu traumatismo craniano e teve três costelas quebradas após recusar uma “cantada” e informar que estava com sua namorada.
Em Curitiba (PR): Uma funcionária de hotel de 55 anos foi alvo de estrangulamento e chutes após negar um beijo a um hóspede. Ela desmaiou implorando pela vida.
Vivemos em um país que executa quatro mulheres por dia apenas por serem mulheres. Em 2025, o Fórum Brasileiro de Segurança registrou 1.568 feminicídios. Desde 2015, somamos 13.703 vidas ceifadas — 97,3% delas vítimas de homens que se autoproclamam juízes do direito de uma mulher existir.

O escárnio atinge até os símbolos da nossa luta. No Ceará, a Justiça acolheu denúncia contra o ex-marido de Maria da Penha e outros comparsas por uma ação organizada para desacreditar a mulher que dá nome à nossa principal lei de proteção. Atacar Maria da Penha, hoje com 81 anos, que vive em uma cadeira de rodas devido à tentativa de assassinato que sofreu, é uma tentativa de assassinar a própria rede de proteção que ela ajudou a construir.

A melhor homenagem que as mulheres poderiam receber neste mês de março não são flores ou mesuras, mas o aprimoramento da legislação. Criminalizar o estímulo ao ódio contra o gênero feminino é um marco civilizatório inadiável. É o passo necessário para que o “não” de uma mulher deixe de ser lido como um convite à violência e passe a ser respeitado como um direito fundamental à vida.

Os textos de artigos publicados neste blog são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.

*Adriana Vasconcelos é jornalista e consultora da Quero Você Eleita, laboratório de inovação política que trabalha para ampliar a participação feminina em espaços de Poder.

Redação com texto compartilhado do site Congresso Em Foco em 16/03/2026
E-mail: redacao@blogdellas.com.br

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