O Agente Secreto prova importância da economia criativa para PIB de Pernambuco, que ainda não a trata como negócio

Apesar de sua potência criativa, Estado tem uma enorme dificuldade de focar em ações culturais que alavanquem a cadeia produtiva que existe na cultura
Por Fernando Castilho do JC
No futuro, quando perguntarem qual a imagem do Carnaval de 2026, não será a do presidente Lula no desfile do Galo da Madrugada, nem o coração de Dom Helder Câmara na escultura gigante na ponte da Boa Vista ou o desfile do Homem da Meia Noite em Olinda. Será a camisa retrô da Pitombeira, a mesma que o ator Wagner Moura veste numa cena no filme O Agente Secreto, que concorre ao Oscar no próximo dia 15 de março em Hollywood.
Produzida em série pelo clube carnavalesco, copiada aos milhares por diversas pessoas e transformada em brinde pelo Governo de Pernambuco, que vestiu a primeira-dama, Janja da Silva, ao lado do presidente Lula, a camisa amarela vestiu milhares de pessoas no dia da festa do Oscar, na torcida pelo filme de Kleber Mendonça, ambientado no Recife.
Camisa retrô
A camisa retrô é apenas um exemplo da potência da economia criativa de Pernambuco, que movimenta uma cadeia produtiva que vai muito além da produção de camisas e que se espalha não apenas pelo Carnaval e pelo São João, que o Governo do Estado não trata como um fator de nossa economia, como é a agroindústria canavieira, a fruticultura, a indústria de alimentos, o polo automotivo e o complexo logístico que o Porto de Suape ancora.
Dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Fecomércio Pernambuco estimam que o impacto financeiro do Carnaval de Pernambuco em 2026 está estimado em R$ 2,4 bilhões. É um número importante. Entretanto, muito pouco quando comparado a Salvador, cujo Carnaval deve ter movimentado mais de R$ 1,8 bilhão, sendo a principal força motriz da temporada no Nordeste.

Plataforma baiana
A Bahia conseguiu transformar o Carnaval numa plataforma estratégica da economia criativa na cidade, revelando a força das comunidades de nicho e a diversidade de experiências simultâneas que Salvador oferece durante o verão.
A necessidade de Pernambuco transformar a economia criativa numa plataforma estratégica vem sendo defendida por ninguém menos que a economista Tânia Bacelar, para quem estruturar e definir claramente o que a potência desse segmento como eixo econômico é tão necessário como o de organizar a estratégia da ferrovia Transnordestina no Estado.
Diversidade cultural
Pela potência que ela tem com sua diversidade cultural e que bastou apenas um fato como a reconstrução do Recife dos anos 70 numa obra de ficção do cinema para desencadear todo o interesse pelo que era a capital pernambucana, sua vida social e política e sua economia exibida nos anúncios da avenida Guararapes na época. O Recife virou um personagem a mais no filme de Kleber Mendonça, assim como o seu elenco.
Para Tânia Bacelar, é essa potência criativa que precisa ser vista como um negócio inserido em toda a cadeia de serviços que ela demanda, e que está aí precisando apenas de um olhar estrutural. Como um ator econômico mesmo.
Identidade ancestral
Bacelar não está sozinha na percepção do potencial da economia criativa de Pernambuco. O consultor de Mercados Globais na Capibaribe Analytics, Jefferson Lucas, avalia que, no filme, Pernambuco encontrou o ponto de equilíbrio perfeito entre sua identidade ancestral e sua ambição global.
“Não estamos falando apenas de festa; estamos falando de uma engrenagem econômica que sustenta milhares de famílias e posiciona o estado como um hub de economia criativa e vanguarda financeira. O mundo finalmente está enxergando o que nós, pernambucanos, sempre soubemos: nossa cultura é um dos ativos mais rentáveis e resilientes da América Latina”, avalia.

Como empacotar
A avaliação dos dois economistas é um alerta importante, mas a questão é como empacotar essa tal economia criativa, afinal, ela não se resume apenas a um ‘período festivo’ e para se consolidar como ativo estratégico, precisa ser capaz de articular cultura, turismo, toda a cadeia de hotelaria e eventos com geração de empregos e renda em larga escala.
Divisor de águas
A produtora, founder e CEO da empresa Festa Preciosa, Marcela Silva, avalia que Salvador mostra que já tem tudo para liderar esse movimento. O ano de 2026 terá sido um divisor de águas para colocar a cidade em evidência, já que o número de turistas deve aumentar consideravelmente numa expectativa de atender 3,4 milhões de turistas disputando atenção com destinos como Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza.
Salvador, pelo que estruturou seu produto com a inclusão de todos os seus artistas, o seu patrimônio histórico-cultural e o modelo de Carnaval, é um bom exemplo de como economia criativa pode gerar um negócio de classe mundial se inserindo na economia do Estado.

Foco definido
A diferença em relação a Pernambuco talvez seja foco. No passado, a Bahia escolheu o frevo e agregou a ele muito mais que o trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar. Juntou na festa todos os artistas baianos e criou a Timbalada de Carlinhos Brown, apenas para falar nos principais. Pernambuco tem uma enorme dificuldade em escolher o que trabalhar entre seus diversos ritmos, até porque, recentemente agregou o brega ao Carnaval.
Mas, segundo Jefferson Lucas, quando o cinema global escolhe o Carnaval do Recife e de Olinda, “está chancelando nossa infraestrutura, nossa capacidade logística e nossa relevância como polo de influência”.

Provocação
É uma boa provocação. Mas agora que a Orquestra do maestro Spok encerrou mais uma vez o carnaval do Recife no Marco Zero, talvez seja um bom momento dos atores dessa cadeia produtiva da economia criativa começarem a pensar além dos quatro dias do Carnaval. O que vai exigir ajuda do próprio Governo do Estado para abordar, estudar e entender o sistema e, quem sabe, propor algo mais estruturado para os próximos anos como estratégia de Estado.
Redação com texto de Fernando Castilho compartilhadodo JC em 18/02/2026
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