Meu Avô Egídio

 

*Pedro Octaviano Ferreira Lima

 

Desde sempre o meu avô foi a minha grande referência. E quando passei a entender que nossa existência nesse plano é transitória, meu maior medo era perdê-lo. Escrevo este texto que eu nunca desejei encarar. Talvez o medo que caminhou comigo a vida toda foi me preparando para aceitar melhor quando esse momento chegasse. Os últimos cinco meses de luta serviram para aliviar a dor e tornar esse momento menos sofrido.Talvez, os 92 anos tornaram o processo natural. Mas, com certeza, o que fez disso tudo algo menos doído foi o próprio Egídio Ferreira Lima. Dor, tristeza, sofrimento, nada disso combinava com ele . Ando mantendo-me em pé, tentando levar a vida normalmente como um tributo ao que ele representou . Na sua ausência, não permito que sentimentos negativos se associem a ele.

 

O homem que sou hoje foi construído em base sustentada firmemente por sólidos pilares: meus pais Paulo e Luciana. Meu avô. Nota-se, portanto, que meu avô é o responsável diretamente por um pilar e indiretamente por outro, já que há muito dele nos meus pais. Interessante notar que alguém que nunca teve a sua base física forte, em decorrência da pólio, sirva tão bem como base nesse contexto. Como tantas vezes meu avô foi minhas pernas, me carregando pra um lado e para outro na sua cadeira de rodas em nossas viagens…. Minha mãe ficava irritada que eu sentasse nas suas pernas frágeis. Meu avô, por outro lado, me recebia em seu colo sem reclamação. Importante registrar como alguém que não conseguia andar estava sempre dois passos na nossa frente. Dessa vez, eu queria ter sido mais rápido que ele.

 

Professor, fez de casa sua principal sala de aula. Como ouvinte do seu brilhantismo, cresci. Aprendi a escutar desde cedo quem tem muito a acrescentar e hoje, tal ensinamento, é fundamental para profissão que escolhi. Profissão que foi escolhida por conta dele. Quando decidi meu futuro, ainda com um olhar romantizado da carreira, sonhava em possibilitar que meu avô voltasse a caminhar. Não que isso fosse um problema pra ele. Nunca o ouvi falando nada em relação a pólio. Nunca utilizou a doença para justificar algum fracasso ou exaltar algum feito. Desconheço alguém mais otimista do que ele. Não o otimista preguiçoso, aquele que só espera que as coisas aconteçam . Não. Meu avô foi o otimista ativo, daqueles que acreditam que as coisas darão certo por que por trás da crença há muita energia gasta e assim agiu, do começo ao fim da vida. “O Brasil será um grande país”. No hospital, em uma das nossas últimas conversas meu avô perguntou se eu acreditava no futuro. Ele acreditava.

 

Não só de otimismo Egídio se fez. Além de tudo, foi um homem reto, íntegro, honesto, amoroso, includente, plural, visionário. Íntegro, reto e honesto . Não fez dinheiro com a política. Não cresceu por meio de alianças nefastas, nem defendendo seus próprios interesses. Plural , defendeu até os últimas dias o direito de todos, sem exceções. Pouco antes da pandemia tive uma das muitas conversas com ele em sua varanda. Decidi saber o que ele achava sobre as chamadas minorias de hoje em dia. Alguém nascido em 1929 certamente carregava os preconceitos da época, pensei. Mas meu avô não era qualquer um, era livre de preconceitos, era a favor da igualdade para todos e quando perguntei o que ele achava sobre mulheres trabalhando ou homossexuais namorando livremente , ele respondeu com naturalidade: “Qual o problema? Eles devem ter seus direitos garantidos como todos”.

 

Egídio Ferreira Lima era um homem amoroso Acolheu os filhos da sua cunhada como seus próprios filhos e por isso foi chamado de Pai Egídio a vida toda. Visionário, dentre tantos fatos que podem ser citados, destaco um em especial. Quem é do meio médico já ouviu a frase: “um médico que só de medicina sabe, nem de medicina conhece”. Isso é um clichê reproduzido universalmente e tratado como uma frase genial, admirável. Meu avô, que nunca estudou medicina nem vivia o segmento, chegou a mesma conclusão genial e fez uma adaptação no estilo dele ao se referir a mim: “Pedro, você não é só médico. Leia os romances, entenda a política.” Um feito visionário e genial que só podia ser fruto da mente do meu avô.

 

Ao se encontrar comigo sempre recorria a uma passagem bíblica: “Pedro, sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” Nunca soube o que responder. Hoje, eu digo: “Vô, sobre esta pedra, sobre este Pedro, você deixou o seu legado, seus divinos ensinamentos.”

 

Desde cedo, meu avô me incentivou a me interessar pelos livros. Leitor ávido, conseguiu embutir na filha e no neto mais velho um dos maiores ensinamentos possíveis: que a leitura transforma, abre portas e enriquece a alma. “Leia os romances, Pedro.” Não entendia no começo, achava que ele queria que eu lesse histórias de amor e não valorizava muito essa indicação, só uma criança pra achar que qualquer coisa que saísse da boca dele era superficial, sempre havia um grau de profundidade por trás. Teria muito a falar sobre o meu avô. É ingênuo achar que conseguiria resumir 24 anos de amor por ele em um simples texto. O legado do meu avô permanecerá vivo em mim, a sua memória sempre estará presente aonde quer que eu vá. Ana Cláudia Quintana escreve que: “morremos antes da morte quando esquecemos de nós, morremos depois da morte quando esquecem de nós.” Meu avô permanecerá vivo. Egídio Ferreira Lima, o nome que por si só é imponente, ecoará para sempre em nossas vidas.

 

Vô, espero lhe encontrar um dia para conversarmos sobre a vida, tomando um vinho e olhando o mar. Como fizemos por tantas vezes.

 

Foto: Acervo de família

 

*Pedro Octaviano Ferreira Lima de Araújo, 24 anos, é estudante de medicina da UPE.

Compartilhar