Metaverso: uma espiada no futuro

 

Naia Veneranda

 

Para quem nasceu antes dos anos 1990, alguns avanços tecnológicos de hoje pareceriam coisa de filme, magia ou conto de fadas. Antes do celular existia, por exemplo, uma brincadeira chamada “telefone sem fio”. Nem dá para acreditar: telefone sem fio era algo que só existia na imaginação. Hoje, explicar para alguém que nasceu depois de 2010 que houve um tempo em que telefone de tecla era uma minoria, comparando-se ao telefone de disco (e para quem não sabe do que estou falando, é só procurar no Google Images).

 

E o que o metaverso, título deste artigo, tem a ver com isso? Tudo! Porque é mais um passo “em direção ao futuro” e que até hoje, para muitos de nós, tem vida apenas na imaginação. Porém as previsões indicam que vai chegar, incorporar-se à nossa realidade e evoluir muito, atendendo aos nossos anseios, assim como o telefone sem fio e o telefone celular.

 

De acordo com a Wikipedia, metaverso é “a terminologia utilizada para indicar um tipo de mundo virtual que tenta replicar a realidade através de dispositivos digitais. É um espaço coletivo e virtual compartilhado, constituído pela soma de realidade virtual, realidade aumentada e Internet”. O termo foi utilizado pela primeira vez no livro “Snow Crash”, de Neal Stephenson, publicado no Brasil com o nome de Nevasca, há 30 anos, em 1992, quando o telefone sem fio já era mais que uma brincadeira, mas pelo menos aqui no Brasil, para quase a totalidade das pessoas, só funcionava dentro de casa.

 

Nesse livro, conforme explicado no site Canal Tech, “as pessoas usam avatares digitais de si mesmas para explorar um universo online, na maioria das vezes, para escapar de uma realidade distópica. O livro prevê (…) que o metaverso se tornará um sucessor da internet e, consequentemente, das redes sociais.” Confesso que me parece haver mais da realidade atual prevista na obra do que apenas o metaverso. Mas foquemos nele.

 

Pensar na existência de um sucessor das redes sociais é uma boa forma de ver com mais clareza o que é este novo ambiente virtual. Quando começaram, as redes mudaram totalmente nossa forma de relacionamento, ao ponto de, durante a pandemia, terem se tornado absolutamente fundamentais para o relacionamento com familiares, amigos e clientes. O dia em que o WhatsApp, Instagram e Facebook caíram, o assunto foi manchete nos jornais, sites, blogs. Afinal, as postagens nos davam um senso de coletividade e as chamadas de áudio e vídeo do programa tornaram-se nosso maior elo com entes queridos e distantes. A cada chamada de vídeo, nós não estávamos lá, fisicamente, mas virtualmente víamos as pessoas, conversávamos com elas, podíamos ver a expressão facial, fazer refeições juntos, assistir a filmes juntos e tantas outras coisas.

 

Bem, seguindo no nosso tema, considere que você, no próprio WhatsApp, colocasse, como imagem de perfil, algum personagem que te representa (como aquele avatar do Facebook, sabe?) e, por uma funcionalidade do app, esse seu avatar pudesse fazer uma ligação para algum dos seus contatos, e quem atende a chamada de vídeo é o avatar dele. Imagine que na tela maior, em vez de ver o seu amigo, você está vendo o avatar dele e ele o seu. Pois é, este é um jeito de começar a entender o metaverso na prática.

 

Pense que, na mesma chamada, assim como já acontece no Google Meet, Zoom e outros, você pudesse escolher o fundo, mais que isso, que você pudesse interagir com o fundo. Quer dizer, em vez de apenas aparecerem peixinhos estáticos ou mesmo em movimento, nesta videochamada, você poderia “entrar” neste fundo de tela e interagir com os tais peixinhos. Indo mais além, pense numa funcionalidade de compartilhamento do fundo, de forma que você e seu amigo, se quisessem, poderiam nadar com os peixinhos ao mesmo tempo e interagirem. Pronto, você acabou de criar um metaverso na sua mente: um ambiente virtual em que, por meio de avatares, você se relaciona com o que há à sua volta, sejam outros avatares, paisagens, lugares e uma infinidade de coisas.

 

Bom, o metaverso pode acontecer totalmente neste mundo virtual, como no caso em que os dois avatares nadaram com os peixinhos, mas pode também interagir com o mundo fixo: que tal um show “apenas” para avatares? Pense num cantor (“em carne e osso”) se apresentando, mas quem está na pista são os avatares dos fãs, estes também, em carne e osso, em casa com seus óculos ou dispositivos hápticos. Difícil de entender? Isso já aconteceu, dê uma olhada aqui.

 

Mas, claro, tudo pode ser mais complexo. Já viu alguém jogando Pokémon Go? Aquele jogo que transforma sua casa e a rua em um cenário totalmente diferente? Considere isso como uma forma de manifestação do metaverso. Você, aqui no mundo real, interagindo com o mundo virtual de forma a transformar a realidade ao seu redor. E não para por aí.

 

Acho que agora fica mais fácil imaginar que em vez de estar no mar do seu fundo de tela, você pode igualmente estar em uma cidade, em que você, ou melhor, seu avatar, pode caminhar livremente, entrar em lugares… e, claro fazer compras. Uma diferença bem interessante do metaverso é o fato de que você pode fazer aquisições que serão exclusivamente suas. Te conto como:

 

Você pode comprar infinidades de coisas no metaverso, mas vamos pensar em algo bem comum: um calçado, neste caso um tênis virtual. Esse tênis não será como aqueles do mundo físico em que, se não servir, você pode ir lá e trocar por outro. É, pelo contrário, como se fosse o tênis de um grande jogador de basquete vendido em leilão. Aquele tênis não tem substituição e, quando você adquiri-lo, só você poderá definir o que fazer com ele. E, geralmente paga-se bem caro por esses artigos de celebridades. Se esta ideia ficou clara para você, você acabou de entender os tais NFTs: artigos não fungíveis usados online. É como se a cada compra de um NFT você estivesse adquirindo um tênis do Michael Jordan. E não há limites para os NFTs. Pode ser um objeto, como um tênis mesmo, uma imagem, um objeto de decoração, peça de roupa e por aí vai. Ah, sim, e para garantir que é seu e de mais ninguém, ele tem um certificado de propriedade caracterizado por um código de barras extenso, muito extenso. O caminho da blockchain é mais ou menos nessa linha.

 

Se você quiser ter um pouco mais de imagem para isso tudo, recomendo assistir ao episódio San Junipero da série Black Mirror (Netflix); o episódio Sasha da série Solos da Amazon Prime e, especialmente a série Upload, também da Amazon. Nessa última, embora a palavra metaverso não seja citada em nenhum momento, fica fácil entender como a vida por meio de avatares num universo diferente é algo perfeitamente normalizável, inclusive utilizando óculos e equipamentos hápticos (que dão a sensação de toque).

 

O que você leu aqui é uma tentativa de ilustrar essa nova realidade, que em pouco tempo estará tão incorporada em nossas vidas que vai ser difícil lembrar e explicar como a gente vivia antes. Assim como acontece com o telefone de disco.

 

Naia Veneranda mora em São Paulo. É jornalista, tradutora e professora, com especializações na área de Letras e Comunicação Digital. É uma das idealizadoras do programa De Olho na Rede, voltado para a comunicação e marketing digital e desenvolve produção técnica em Educação a Distância para curso de Letras. É Mestre em Estudos da Tradução (Cartas para Van Gogh) e também se dedica a projetos de Literatura e Escrita. Ela passa a colaborar com o Blog Dellas com seu oportuno primeiro artigo focado no universo do Metaverso.

 

E-mail: naiaveneranda@gmail.com

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