Maracatus não são todos iguais :tradição, diversidade e riscos de descaracterização – Por Alexandre Acioli*

Com a aproximação do Carnaval, ganha força nas ruas a repetição de uma ideia equivocada e bastante difundida entre foliões e turistas: a de que “os maracatus são todos iguais”. A afirmação, no entanto, não resiste a um olhar mais atento às manifestações culturais de Pernambuco. Mestres e estudiosos alertam que o desconhecimento e a simplificação contribuem para a incompreensão – e até para a descaracterização – de tradições que carregam séculos de história.
A confusão aumenta com o crescimento de grupos percussivos que se apresentam nas ladeiras de Olinda e no Recife Antigo. Tornou-se comum chamar de “maracatu” qualquer manifestação com alfaias. Embora tenham valor artístico e recreativo, esses grupos executam repertórios variados, que vão do samba ao reggae, passando por MPB, brega, hip-hop e outras experimentações musicais. E, mesmo reproduzindo elementos do baque virado, não mantêm vínculo com os fundamentos culturais, religiosos ou rituais dos maracatus tradicionais.
A apropriação estética e a reprodução superficial podem levar à descaracterização da manifestação original e à invisibilização dos grupos tradicionais, que mantêm vínculos profundos com os terreiros de Candomblé, com a Jurema Sagrada e práticas ancestrais afro-brasileiras.
Pesquisadores como Mário de Andrade (1893-1945), Câmara Cascudo (1898-1986) e Guerra Peixe (1914-1993), que dedicaram parte das suas obras à origem e às transformações das manifestações afro-brasileiras, ressaltam que o maracatu não se resume apenas à batida das alfaias. Ele envolve história, religiosidade, sonoridade, simbolismos, rituais e personagens específicos.
Em Pernambuco, existem duas matrizes principais de maracatu reconhecidas por pesquisadores e entidades de preservação cultural. O Maracatu Nação, também chamado de Baque Virado, tem raízes nas irmandades negras católicas e nos antigos rituais de coroação de reis e rainhas do Congo e de Angola, registrados no Recife desde 1674, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Inicialmente, a palavra “maracatu” tinha conotação pejorativa, significava “ajuntamento de negros”. Com o tempo, o termo passou a nomear a manifestação que hoje conhecemos.
O Maracatu Nação é uma tradição urbana, ligada ao Candomblé e a Jurema Sagrada, e à manutenção de uma “nação espiritual”, formada pelo terreiro, pelo cortejo e pelo axé representado na calunga. O cortejo exibe personagens como o Porta-Estandarte, a Dama do Paço (responsável pela calunga), Rei e Rainha, Damas de Frente e Damas-de-honra, Baianas, Príncipe e Princesa, Vassalos e o Caboclo Arreia-Mar – figura vinculada especialmente às práticas da Jurema Sagrada. A orquestra, formada por alfaias, gonguês, caixas, taróis e abês, é comandada pelo Mestre de Apito.
Já o Maracatu Rural, ou Baque Solto, nasceu na Zona da Mata Norte pernambucana, no final do século XIX, influenciado por folguedos como o bumba-meu-boi, o cavalo-marinho, o pastoril, o reisado e às brincadeiras de cambindas. Nele não existe corte real.
A figura central do Maracatu rural é o caboclo de lança, com a sua dança de movimentos energéticos ao redor da orquestra. Também chamado de lanceiro, se tornou símbolo da cultura pernambucana. Rostos pintados, óculos escuros e um cravo branco na boca; vestem camisas estampadas, de mangas longas; gola colorida ricamente bordada com lantejoulas e pedrarias; calças de chita com franjas, chamada de fofa. Nas costas carregam um surrão onde estão presos os chocalhos, geralmente em número ímpar, “para não dar azar”. Na cabeça, um lenço e uma enorme cabeleira com tiras de pano colorido. Nas mãos, uma lança de madeira (Guiada) com fitas multicoloridas, medindo pouco mais de dois metros.
No cortejo, aparecem ainda o bandeirista (porta-estandarte), Mateus e Catirina, o Babau, a burrinha, o caçador, carboreteiros (lampiões), madrinha ou Dama do Paço; cordões de baianas e o Caboclo Arreia-Mar (Caboclo de Pena). As manobras, ordenadas pelo Mestre, são feitas em torno do cortejo. Esse tipo de maracatu tem quatro tipos de cantoria: marcha (sempre de quatro versos), samba curto (de quatro a seis versos), samba comprido (geralmente de 10 versos, mas podendo ter até 20) e o galope (normalmente de seis versos).
Nas suas diferentes expressões, o maracatu é patrimônio cultural e representa um dos pilares da identidade afro-pernambucana. Justamente por isso, os mestres chamam atenção para o risco de que a proliferação de grupos sem ligação com os terreiros e comunidades tradicionais contribua para a diluição dos sentidos históricos e religiosos que sustentam a manifestação, além de usos e exploração comerciais distorcidos.
Além da luta pela manutenção de rituais e práticas ancestrais, os grupos enfrentam o desafio de repassar saberes às novas gerações, garantir condições de continuidade e combater o racismo religioso, ainda presente em abordagens superficiais e em interpretações que transformam símbolos sagrados em elementos apenas decorativos.
Para quem se prepara para cair na folia, recomenda-se um exercício simples: observar e escutar. Os personagens, as vestimentas, as cores, a cadência das loas, o ritmo do baque e o comportamento dos cortejos revelam, imediatamente, que os maracatus não são iguais. Pelo contrário: são diversos, plurais e profundamente marcados por trajetórias históricas distintas. Iguais somente na força estética, na alegria e no colorido que encantam.
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*Alexandre Aciolli é Sociólogo, jornalista e produtor cultural.