Só Carolina não viu

Famosa música de Chico Buarque, Carolina, a moça dos olhos tristes que não viu o tempo passar, resume bem o que está acontecendo com o PT pernambucano. Como o namorado que passou e a moça desatenta ficou para trás de que fala Buarque, o prefeito João Campos deu todos os sinais de que não entregaria sua vice a um petista. Deixou isso claro através de interlocutores e os petistas não entenderam; escolheu quatro secretários para filiar em outros partidos e deixou patente que um deles seria o vice, e o PT não viu. O PT do Recife chegou ao ponto vexatório de fazer uma seleção de candidatos a vice e escolher Mozart Sales para ocupar o lugar que João não queria dar. Mozart até se desincompatibilizou do Ministério de Relações Institucionais para não ficar inelegível mas não deu em nada.
O PT, sabe-se agora, ainda acreditava que João, por mais sinais que desse, não resistiria a um apelo do presidente Lula. Pois bem, esta quinta-feira, Lula fez o apelo que lhe havia sido sugerido até pela deputada federal Gleisi Hoffmann, presente ao encontro, e levou um não. “Não foi um não assim direto”- afirmou ontem um petista a este blog. Explicou que antes, o prefeito, como era de se esperar, fez uma longa preleção dizendo que vai se candidatar a governador e tem pesquisas indicando que a população deseja que ele escolha alguém de seu convívio direto para ser vice (não falou, mais ficou subentendido, para assumir o lugar de prefeito em 2026, quando ele se desincompatibilizar). Na metade do caminho todos já estavam convencidos de que não se tinha mais nada a tratar e foi marcado o anuncio para esta segunda-feira no Recife com a presença de Gleisi.
Apesar de ter durante a conversa deixado uma larga porta aberta para ter Humberto Costa como candidato a reeleição na sua chapa de 2026, João Campos, já se sabia de antemão, não entregaria a Prefeitura a um membro do PT por muitas razões além das expostas acima. Há quatro anos apenas, viu os petistas escolherem sua prima, Marília Arraes, para enfrentá-lo na eleição do Recife. Acabou no segundo turno quando foi obrigado a expor na TV os malfeitos de petistas para poder vencer Marília. Eleito, fez ouvidos de mercador. Não convidou ninguém do PT para participar de sua administração. Em 2022 novamente o PT, agora representado por sua militância e sob o comando de Marília, vaiou o então governador Paulo Câmara, do PSB, e o candidato a governador Danilo Cabral que acabou em quatro lugar.
Este ano ele abriu espaço em duas secretarias de pouca expressão para os petistas do Recife mas não lhes garantiu estrutura suficiente para trabalhar. As reclamações são muitas nos bastidores. Queria com este espaço ter o apoio do partido que já sabia iria estar fora de sua chapa. Mas a vingança que anda a galope não ficou por aí. O vice Victor Marques, o preferido dele – os outros ficaram na vitrine só para compor – João filiou no PCdoB, um partido que participa de uma federação com o PT, o que obriga as duas legendas a ficarem lado a lado em qualquer disputa. Agora o PT vê que o nome da Federação na vice é Victor e que o partido precisa respeitar para não se indispor com a Federação.
Mesmo com todas essas coordenadas, o PT continuou surdo-mudo, vendo o mundo passar e acreditando em milagre. O que fará? Vai aceitar o prato feito como o presidente Lula aceitou e também a presidente do partido Gleisi Hoffmann que, numa entrevista no Recife durante o carnaval, cunhou uma frase lapidar: “não trabalho com a possibilidade do PT não ter a vice no Recife”. Não terá e Gleisi, infelizmente, vai ficar na janela.

Qual vai ser a reação da militância petista no Recife, vai votar em Dani Portela?
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