Lula nada de braçadas mas se perde por falar demais

Em menos de um mês de mandato, o presidente Lula atravessou uma crise sem precedentes com tentativa de golpe e depredação das sedes dos três poderes mas saiu dela mais forte, inclusive impondo-se às Forças Armadas ao demitir o comandante do Exército. No sábado passado fez outro gol ao denunciar a tragédia dos yanomami. Paralelamente, porém, em diversos momentos durante esta semana, ele acumulou declarações vexatórias, anúncios mal colocados e tentativas de reescrever a história que têm lhe rendido críticas de todos os lados e enorme desgaste nas redes sociais.
Em viagem à Argentina, o presidente elogiou a condução da economia daquele país, que tem hoje uma inflação de 95%, defendeu a criação de uma moeda comum entre Brasil e Argentina e disse que o BNDES vai financiar a construção de um gasoduto que ligaria a Patagônia Argentina ao Brasil, o que rendeu manchetes entusiasmadas dos jornais em Buenos Aires. Como se não bastassem esses posicionamentos, criticados intramuros até por auxiliares do presidente, Lula fez uma declaração incompreensível e desnecessária em Montevideo esta semana dizendo que o impeachment de Dilma foi um golpe que teve a participação do ex-presidente Michel Temer, a quem acusou de ter ajudado a destruir as políticas sociais petistas.
Como a cada ação corresponde um reação igual, mas em sentido contrário, como reza a terceira lei de Newton, as reações aos destemperos do presidente foram imediatas. As redes sociais se encheram de memes afirmando que a primeira obra de Lula não vai ser no Brasil mas um gasoduto na Argentina. Já analistas políticos e econômicos disseram que a moeda comum é inviável e o financiamento do BNDES improvável, como afirmaram depois até condutores da atual política econômica brasileira. As declarações contra Temer, porém, renderam ao presidente uma resposta jamais imaginada vindo da boca de um jurista: “sou uma pessoa educada, mas quero lembrar que fui secretário de segurança e sei lidar com bandido” respondeu a Lula o ex-presidente, em entrevista à jornalista Dora Kramer da Bandnews.
Passando dos limites
Lula precisava acumular tantos desgastes em pleno início de mandato? Naturalmente que não mas o próprio Temer arriscou uma senha. Disse na mesma entrevista a Dora Kramer que acha que o presidente o escolheu como adversário “para fortalecer a narrativa de que a saída de Dilma foi ilegal”. Na verdade esta tese, levantada pelo próprio tem PT, tem causado dores de cabeça ao Governo pois o impeachment foi feito após processo legislativo e judiciário, como manda a Constituição, e muitas das pessoas que dele participaram hoje dão sustentação ao presidente no Congresso e no STF. Um problemão.
Ponto por ponto
Temer chegou a enviar nota à imprensa desmentindo, com ironia, uma por uma das alegações de que teria destruído as conquistas sociais petistas, acrescentando “é verdade, destruí um PIB negativo de 5% para positivo de 1,8%; a inflação de dois dígitos para 2,75%; juros de 14,25% para 6,5%: queda dos desemprego de 13% para 8%, graças à reforma trabalhista; recuperação da Petrobrás e demais estatais, graças à Lei das Estatais; destruí a Bolsa de Valores que cresceu de 45 mil para 80 mil pontos”. E concluiu: “recomendo ao presidente Lula que governe olhando para a frente, defendendo a verdade, praticando a harmonia e pregando a paz”.
Fala demais
A verborragia lulista foi discutida pelos assessores de comunicação do presidente, segundo analistas políticos da Globonews e CNN, que teriam demonstrado preocupação com os degastes causados na imagem de Lula, quando tudo caminhava para uma melhoria grande de sua aprovação. Chegou-se até a analisar, segundo as mesmas fontes, a
possibilidade de recomendar ao presidente, que adora um improviso, que opte, daqui para a frente, por pronunciamentos escritos. Será?
Pergunta que não quer calar: quem vai convencer Lula a ficar calado ou fazer discursos escritos?
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