Edgar Moury: Um rebelde com causa- por Ennio Benning*
O ex-deputado Edgar Moury Fernandes Sobrinho nasceu em 2 de janeiro de 1944. Ainda muito jovem, a partir do final dos anos 1960, construiu uma trajetória política fortemente ligada ao MDB e depois ao PMDB de Pernambuco, ao lado do ex-governador Jarbas Vasconcelos. Filho do advogado e deputado Edson Moury Fernandes, Edgar conquistou o primeiro mandato nas eleições de 1966, eleito para uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Ele trabalhou nos anos anteriores com o então governador Paulo Guerra – que havia assumido o Palácio do Campo das Princesas com a deposição de Miguel Arraes, em abril de 1964. Desenrolado e proativo nas suas atividades no Palácio do Governo, estabeleceu uma relação política e afetiva com o chefe – de quem Edgar era secretário de Educação.Eleito pela Arena, ingressou no MDB quando o pai, mesmo filiado à Arena, foi cassado, em 1969, pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5).
Já no MDB, se firmou como personagem fundamental ao lado de Jarbas na estruturação dos emedebistas no interior do estado, renovando o mandato de deputado nas eleições de 1970 e de 1974. Nesse período, teve bastante influência na Assembleia, ocupando posições na Mesa Diretora e firmando alianças informais entre o MDB e a “Arena Rebelde”, grupo de deputados estaduais que divergiam do governador Eraldo Gueiros. A composição chegou a eleger o comando da Casa, mas teve que recuar diante da ameaça de cassação de mandatos como ocorreu em 1969.
Edgar optou por não disputar a eleição de 1978, mas retornou à Assembleia em 1982. Em 1986, após anunciar que não iria disputar mais um mandato na Assembleia, chegou a ser cotado para ocupar a posição de vice na chapa de Miguel Arraes, que, no entanto, foi entregue a Carlos Wilson.
Com a vitória, Arraes o escolheu como secretário de Administração. Mas ficou pouco tempo no cargo, num embate direto com o governador. Setores do governo o responsabilizaram pela derrota (em votação na Assembleia Legislativa) do ex-prefeito Germano Coelho para ser conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE). Até então, Germano presidia o Ipsep, mas, apesar de subordinado à Administração, não dava satisfações ao secretário.
Edgar chegou a alertar o governador de que a composição não daria certo. Vieram os atritos e o desfecho: Germano fora do TCE e Edgar fora do governo.
Foi a primeira e única vez em que um escolhido do governador para o TCE foi rejeitado pelos deputados. Moury Fernandes ironizava quem o acusava pela derrota, ao dizer que não tinha tamanho poder. Ele divulgou uma carta pública na qual denunciou a “fritura” pública a que estava sendo submetido:
“Neste instante, não há, portanto, que responder a indignidades sem precedentes na História Política de Pernambuco. A imprensa já se posicionou a respeito do assunto, detectando as ‘fontes palacianas’. Nesse momento, revelador da grandeza e da pequenez da condição humana, agradeço as manifestações irrestritas de solidariedade recebidas.”
Insatisfeito com a falta de solidariedade dos peemedebistas, Edgar se aproximou do PDT e apoiou a candidatura de Leonel Brizola na eleição presidencial de 1989 – convidado pelo candidato a vice, o pernambucano Fernando Lyra. Em 1990, retornou ao ninho do PMDB para apoiar a candidatura de Jarbas Vasconcelos ao governo de Pernambuco.
Apesar da derrota de Jarbas para Joaquim Francisco (PFL), Edgar assumiu posto estratégico no grupo jarbista, atuando como articulador e cuidando das finanças das campanhas seguintes do líder peemedebista, entre 1990 e 2002. Esse papel estratégico se repetiu nas administrações de Jarbas na Prefeitura do Recife (1993-1996) e no Governo de Pernambuco (1999-2002 e 2002-2006).
Com amigos no governo e também na oposição, era um dos quadros mais influentes, mesmo atuando nos bastidores. Foi Edgar que Jarbas escolheu para a missão espinhosa de ir dizer ao presidenciável José Serra (PSDB), em 2002, que não seria candidato a vice.
Porém, o que a política juntou também afastou. Os dois amigos se distanciaram em 2005, quando Edgar decidiu disputar mandato de deputado federal, do qual Jarbas discordava. Edgar se elegeu para a Câmara com 87.499 votos. Foi seu último mandato. Na eleição de 2010, obteve 56.845 votos, mas ficou na suplência.
Jarbas e Edgar se afastaram e só retomaram o diálogo 20 anos depois, no ano passado, quando o ex-governador o recebeu em casa. A reconciliação foi articulada por amigos em comum que não viam sentido algum no afastamento. Foram anos de tentativas frustradas, que, no entanto, terminaram dando resultado.
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*Ennio Benning é jornalista e está escrevendo um livro sobre a trajetória do ex-deputado estadual Edgar Moury Fernandes Sobrinho
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