Desejo de mudança desafia força de Lula para transferir votos em Pernambuco

A campanha para escolha da futura governadora de Pernambuco se encerra esta sexta-feira com uma conclusão incontestável: após 16 anos de poder da Frente Popular comandada pelo PSB, o ex-presidente Lula continua com a mesma força pessoal no estado onde nasceu – pode ter até 70% dos votos válidos para presidente – mas, apesar de ter tido sua imagem usada e abusada na TV durante o primeiro e o segundo turnos, não conseguiu, como fazia antes, transferir para os seus candidatos a governador, Danilo Cabral, na primeira fase, e Marília Arraes, na segunda, os votos que eles esperavam ter, apresentando-o como cabo eleitoral.
No primeiro turno, Lula teve 65% dos votos do estado e os dois candidatos de esquerda que o apoiavam, Danilo e Marília, tiveram juntos 42% dos votos. Na primeira fase da disputa, portanto, 23% dos lulistas não seguiram sua orientação e votaram nos outros candidatos. Danilo, o preferido, pois exibiu o ex-presidente durante toda propaganda eleitoral, ficou em quarto lugar atrás de Marília, Raquel e Anderson Ferreira. Da mesma forma que o PSB, que apostou tudo em Lula, Marília fez o mesmo ao ir para o segundo turno. Participou de uma caminhada gigantesca com o ex-presidente no Recife, colocou-o na TV pedindo votos para ela, e corre o risco de perder para Raquel Lyra, se as pesquisas estiverem certas.
Com altos índices de rejeição, o PSB acabou anulando a influência de Lula na transferência de votos no estado. Os ventos da mudança começaram a soprar logo de saída com quatro candidatos de oposição enfrentando Danilo e deu no que deu. Na segunda fase, o PSB precisou se juntar a Marília para, unidos, fazerem a campanha de Lula e acabou colando sua rejeição na candidata do Solidariedade. Como em toda regra há exceções, nesta eleição ela foi a senadora Teresa Leitão, a única candidata ao cargo na esquerda, que se mostrou competitiva, e teve 46,4% dos votos. Poderia ter tido mais se não estivesse no mesmo espaço dos socialistas na mídia eletrônica e nas ruas.
Autocrítica do PSB
O PSB que, como disse esta semana o deputado federal Danilo Cabral, precisa fazer uma autocrítica após o segundo turno, sempre teve consciência do seu desgaste e lutou com unhas e dentes para ter Lula em seu palanque. Imaginava que a volta do grande líder do PT, ainda por cima pernambucano, curaria todas as feridas. Em um primeiro momento, com a ajuda do governador Paulo Câmara e sentindo o peso da empreitada, o PT tentou emplacar o senador Humberto Costa como candidato, mas o prefeito João Campos foi contra, defendendo um socialista, que acabou sendo Danilo. O sonho de todos era que os petistas ficassem na vice para casar o voto mas não foi possível. O PT exigiu o senado, Marília rompeu, foi para o Solidariedade e deu o tiro de misericórdia na aliança.
PT ganhou força
Independente do resultado da eleição, o PT ganhou uma força no estado que jamais teve, sendo sempre caudatário do PSB. Tem hoje dois senadores, conservou o mandato do deputado federal Carlos Veras e elegeu três deputados estaduais, mesmo número que tinha na Alepe. A incógnita fica por conta do comportamento que a deputada federal Marília Arraes vai adotar caso Lula vença a eleição presidencial. Se ganhar para governadora e voltar para o PT fortalece ainda mais a legenda. Se não ganhar pode, mesmo assim, retornar. O PSB sobreviverá no estado em um governo Lula se tiver quadros no mInistério ou em órgãos importantes. Se isso não ocorrer pode virar um pequeno partido.
O papel de Raquel pelo voto Luquel
Se vencer a eleição domingo, a candidata Raquel Lyra (PSDB) vai mostrar o forte poder de articulação e jogo de cintura nesse segundo turno. Mesmo cobrada com insistência não arredou pé da decisão de se manter neutra para presidente e então choveram apoios para ela de eleitores de Lula que rejeitam Marília e passaram a adotar o voto Luquel, juntando Lula e Raquel. Nas eleições anteriores a esquerda sempre enfrentou no estado candidatos que apoiavam postulantes à presidência infinitamente mais fracos eleitoralmente que Lula – como acontece com Bolsonaro – e acabaram derrotados. Nessa casca de banana Raquel não caiu. Pode até perder mas deu um passo adiante.
Pergunta que não quer calar: qual vai ser o percentual de votos de Lula e de Marília nesse segundo turno?
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