Data Magna: Quando Pernambuco ousou pensar como país
6 de março de 2026, 11:24/
Revolucionários tomaram o controle da província e formaram um governo provisório inspirado em ideias republicanas – Thiago Lucas/JC Ilustração
Por Eduardo Scofi
Durante os primeiros anos do século XIX, Pernambuco deixou de obedecer à monarquia portuguesa e passou a experimentar uma república própria. A revolta iniciada no Recife derrubou a autoridade da Coroa na província e instaurou um governo independente que buscava colocar em prática ideias de liberdade política, redução de impostos e autonomia administrativa.
Embora tenha sido sufocada pela repressão militar, a Revolução Pernambucana deixou marcas profundas na história local e ajudou a consolidar uma memória política que ainda hoje alimenta o orgulho do estado.
Celebrada no feriado da Data Magna, a data lembra o momento em que a província ousou imaginar sua própria república, anos antes da independência do Brasil. Em Pernambuco, corre desde sempre o sangue de heróis.
Quando o sangue dos heróis começou a ferver
O cenário que levaria à revolta começou a se moldar quando a corte portuguesa decidiu cruzar o oceano Atlântico e se instalar no Rio de Janeiro, no início do século XIX.
A presença da monarquia em território brasileiro ampliou o controle sobre as províncias e elevou os tributos necessários para sustentar a estrutura da própria corte.
Para o historiador George Cabral, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), esse processo alimentou uma sensação crescente de exploração entre os pernambucanos.
“Desde a instalação da corte no Brasil há uma subida constante dos tributos e um controle mais intenso sobre as províncias. Era como se Lisboa tivesse chegado mais perto”, explica.
Mapa do Nordeste em 1817 – ARTE/JC
A república é filha de Olinda
Naquela época, Recife se consolidava como um ponto de encontro de mercadorias, viajantes e ideias vindas de diferentes partes do mundo, como o iluminismo.
A abertura dos portos aproximou Pernambuco de mercados como Inglaterra e Estados Unidos, enquanto a seca severa agravava a crise econômica e ampliava o clima de insatisfação na província.
O impulso revolucionário, porém, não era novidade em Pernambuco, que já havia testemunhado em Olinda, em 1710, o primeiro grito republicano do Brasil.
A declaração foi feita pelo capitão-mor Bernardo Vieira de Melo, então vereador da Câmara de Olinda, durante um discurso no Senado da Câmara da cidade.
O estopim
O estopim da revolta aconteceu no quartel de artilharia do Recife, quando uma ordem de prisão contra suspeitos de conspirar contra a Coroa acabou precipitando o movimento. O capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado, reagiu à tentativa de detenção e matou um oficial português que o confrontava, dando início à revolução.
Em pouco tempo, os insurgentes tomaram o controle do Recife e de Olinda, enquanto o governador português foi obrigado a deixar a província. Ali nascia uma república improvável para uma colônia portuguesa.
Bandeira de Pernambuco na Revolução Pernambucana – Reprodução
Com a administração colonial afastada, formou-se um governo provisório composto por representantes de setores considerados essenciais na sociedade da época, como comércio, agricultura, magistratura, militares e clero.
Para Cabral, essa composição refletia uma tentativa de organizar um governo mais amplo do que o modelo centralizado da monarquia portuguesa.
Liberdade proclamada no novo governo
Uma vez no poder, os revolucionários tentaram rapidamente conquistar apoio popular. Impostos foram reduzidos, medidas foram adotadas para diminuir o preço dos alimentos e os salários dos militares foram reajustados.
Três dias após o início da revolução, foi distribuído um panfleto chamado Preciso, no qual as novas autoridades explicavam as razões do movimento e os objetivos da administração provisória. De acordo com Cabral, essa iniciativa revela uma preocupação incomum com a comunicação política naquele período.
Batalhas cruéis e repressão
Apesar da rápida tomada do poder, o novo governo encontrou dificuldades para se consolidar. A notícia da revolução provocou uma reação imediata da monarquia portuguesa, que mobilizou tropas a partir de Salvador e do Rio de Janeiro para cercar a província. Ao mesmo tempo, navios bloquearam o porto do Recife, comprometendo o abastecimento da cidade.
“Ao mesmo tempo em que havia repressão externa, também surgia uma contra-revolução interna de setores que perderam a confiança no movimento”, explica o historiador, referindo-se principalmente a grupos da elite agrária preocupados com as consequências políticas da revolta.
Painel criado em 1967 pelo artista Corbiniano Lins sobre a Revolução Pernambucana de 1817 – Henrique Genecy/Arquivo Alepe
Para Cabral, a violência das punições tinha um objetivo claro: “impressionar e amedrontar os outros para que eles não pudessem nem pensar na possibilidade de se revolucionar contra a monarquia”, afirma.
Além das execuções, milhares de pernambucanos foram recrutados à força e enviados para lutar em guerras da Coroa portuguesa no sul do continente.
Pernambuco, imortal, imortal
Mesmo derrotada militarmente, a Revolução Pernambucana deixou marcas profundas na história política do Brasil. Foi a primeira vez que um movimento revolucionário conseguiu tomar o poder dentro da monarquia portuguesa e organizar uma república em território brasileiro.
Movimento de 1817 deixou marcas profundas na história política de Pernambuco e do Brasil – Thiago Lucas/ JC Arte
Mais de dois séculos depois, a revolução continua presente nas bandeiras espalhadas pelo estado, na memória dos pernambucanos e no orgulho de um povo que, ainda em tempos de colônia, já ousava pensar como país. Pernambuco segue como terra de bravos guerreiros, imortal na própria essência.
Redação om texto de Eduardo Scofi compartilhado do JC em 06/03/2026 Fotos: reprodução do JC