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Com Jones Manoel, esquerda ameaça protagonismo da direita na eleição para deputado federal

Professor de história tem 35 anos, é historiador, youtuber, tem 1 milhão e 800 mil seguidores no Instagram, a grande maioria jovens

Por Terezinha Nunes especial para o JC

Apesar do presidente Lula ter vencido com folga a eleição presidencial em Pernambuco em 2022, a direita bolsonarista surpreendeu elegendo os dois deputados federais mais votados no estado: André Ferreira (PL), com 273 mil votos, e Clarissa Tércio (PP), com 240 mil votos. O primeiro esquerdista da relação foi Pedro Campos (PSB), com 172 mil votos, que ficou em terceiro lugar, apesar do apoio tradicional à sua família e da força que recebeu do prefeito João Campos, seu irmão. Outros nomes mais à esquerda, como Carlos Veras (PT) e Maria Arraes (Solidariedade) tiveram, respectivamente, 127 mil e 104 mil votos.

Como um deputado federal para se eleger sozinho em 2022 precisaria ter 198 mil votos, só André e Clarissa alcançaram o quociente eleitoral e venceriam sozinhos. Os demais precisaram recorrer ao total de votos do partido ou federação para completar os 198 mil necessários. O exemplo da eleição passada pode não se repetir este ano. A esquerda vai ter como concorrente a deputado federal um nome de peso que, para quem entende de números eleitorais, pode se eleger sozinho: o professor de história Jones Manoel, 35 anos, historiador, youtuber, com 1 milhão e 800 mil seguidores no Instagram, a grande maioria jovens, e cuja conta recebe 200 milhões de acessos mensais.

Citado até no BBB

Chamado para fazer palestras e participar de podcasts locais, regionais e nacionais, Jones viaja constantemente para o Centro-Sul, onde é celebrado como a expressão da esquerda na Internet depois que começou a enfrentar o maior fenômeno da direita nas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira. Já tem agenda para gravações e palestras em fevereiro em Fortaleza, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

Esta semana, o programa de maior audiência na TV aberta, o BBB da Rede Globo, mostrou dois dos principais participantes, Babu Santana e Juliano Floss, falando sobre Jones. Babu o citou dizendo que o segue porque ele não fala baboseiras, só trata de coisas sérias e Floss completou: “vai acabar presidente do Brasil”.

Quando um professor de história da UFPE descobriu as redes sociais e como se consagrou nelas? A resposta de Jones surpreende para quem se intitula, antes de tudo, “um comunista”. Ele afirma que começou devagar, se testando, ainda quando era aluno da Universidade, mas despertou para abrir um canal no Youtube em 2017 ao ver que Olavo de Carvalho (guru do bolsonarismo já falecido) aconselhava os seus seguidores a usar o mesmo mecanismo e tinha mais de 80 mil visualizações em cada publicação que fazia. “Resolvi fazer o mesmo. Hoje tenho 620 mil pessoas inscritas no meu canal, e uma média de 2 a 3 milhões de visualizações mensais”.

Charlie Kirk brasileiro?

A exemplo do que fazia outro direitista famoso, Charlie Kirk, dos Estados Unidos, que foi assassinado no ano passado quando participava de um encontro com universitários e se consagrou promovendo debates ao vivo com várias pessoas ao mesmo tempo onde era provocado – normalmente por esquerdistas – e respondia de pronto, Jones gosta desse tipo de exposição enfrentando direitistas, mas nega que tenha se baseado no americano: “só soube de sua existência depois da sua morte. Era um neofacista superficial. Não tinha nada a ensinar de bom”. Um debate de Jones com direitistas bateu recorde no seu canal e alcançou 10 milhões de visualizações em agosto do ano passado. Foi a senha para virar queridinho da esquerda na Internet.

Sua relevância neste meio vai longe. No ano passado, a Meta (provedor da Internet) derrubou o seu Instagram e provocou um grande alvoroço. Ele pediu ajuda, conseguiu advogados, teve a solidariedade da ministra Gleise Hoffmann, que se pronunciou a seu favor e os acessos foram restabelecidos. “Até hoje não sei porque isso aconteceu”, conclui. Jones afirma que se tornou comunista aos 19 anos depois que leu bastante sobre socialismo e capitalismo e entendeu que só o comunismo se preocupa verdadeiramente com os trabalhadores.

Deixou a política para depois
Não quis ingressar na política partidária – “fazia política como militante”. De lá para cá, ele começou a organizar o PCBR, mesma sigla do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário da época da ditadura, mas explica que apenas a sigla é igual, mas não o partido, pois não tem vinculação com os antigos militantes do PCBR. Mas, como a legenda ainda não conseguiu se oficializar, ele decidiu ingressar no PSOL para o que chama de “filiação democrática” onde um militante de outro partido em formação se filia a uma legenda que lhe dê condições de disputar. O PSOL tem como pré-candidato a governador este ano o ex-vereador do Recife, Ivan Moraes.

Ivan afirma que ele é “muito bem vindo” ao PSOL e que o partido tem agora a a chance de eleger o seu primeiro deputado federal no Nordeste. Jones diz que PSOL e PCBR ganham com sua candidatura: “o PSOL porque poderá fazer seu primeiro deputado nordestino que vai ajudá-lo a atingir a cláusula de barreira e o PCBR porque é um partido que, mesmo ainda não registrado, teria um militante na Câmara Federal.”

PCdoB sem prática comunista

Indagado porque não se filiou ao PCdoB, já que se intitula comunista, ele responde: “o PCdoB não tem prática comunista. Aceitou filiar o atual vice do Recife a pedido de João Campos sem que ele tivesse o perfil de esquerda. A ministra Luciana Santos foi vice de Paulo Câmara, que se comprometeu com o bilhete único no transporte metropolitano e nada fez. Pelo contrário, aceitou tirar os cobradores dos ônibus, a passagem não baixou e hoje os motoristas estão assoberbados fazendo tudo sozinhos e ganhando muito pouco”.

Se há uma coisa que ele não aceita é o não atendimento às demandas dos trabalhadores que se organizam e fazem reivindicações. Nos últimos anos, participou de todas as mobilizações contra privatizações ou concessões, aumento de passagens de ônibus e foi dos militantes mais aguerridos do movimento “Ocupe Estelita”, que adiou a decisão da Prefeitura do Recife de aceitar que um grupo privado tocasse um projeto de urbanização como o que vem sendo construído no Cais José Estelita.

João, Raquel e Lula na sua visão

Em linha semelhante à do PSOL , Jones não facilita para quase ninguém. Sobre João Campos, afirma que “é uma figura de direita. O maior privatista da história do Recife. Privatizou até os parques e está entregando à iniciativa privada metade do bairro de Santo Antônio. Quem manda no Recife são os empresários”. Sobre a governadora Raquel Lyra, afirma que ela faz “um governo que é um deserto de ideias, desligado das demandas do povo e incompetente”. Considera o presidente Lula “um neo-liberal, tem um modelo econômico que não privilegia a classe trabalhadora e está privatizando os metrôs do Recife e de Porto Alegre quando prometeu não fazer isso”.

O que um declarado comunista brasileiro fará no Congresso Nacional se for eleito?

“Vou mostrar que é possível fazer um mandato combativo, radical em defesa da classe trabalhadora, sem se adaptar ao jogo da democracia burguesa. É preciso também enfrentar aqueles e aquelas que falavam em revolução, socialismo e se aliam às elites e afins por causa das eleições, abandonando seus discursos pelo objetivo de aumentar sua competitividade eleitoral”, diz Jones Manoel.

Quem o ouve compreende que não é só o pensamento conservador e de direita que ele pensa em combater na Câmara Federal, mas também a esquerda que contemporiza pensando na próxima eleição.

E, pelo visto, não vai escapar ninguém.

Redação com texto de Terezinha Nunes compartilhado do JC em 01/02/2026 Foto: Jailton JR /JC imagem

e-mail: redacao@blogdellas.com.br/terezinhanunescosta@gmail.com

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