
“CACB: um século de história, resistência democrática e memória viva” – Por José Arlindo e Inocêncio Uchôa*

Ao completar cem anos de fundação, o Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua (CACB), da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, reafirma seu lugar como uma das mais importantes entidades estudantis da história do Ceará e do Brasil.
Essa não é, para nós, uma história distante. Falamos dela também como quem a viveu por dentro, em um dos períodos mais duros da vida nacional. Fomos parte de uma geração que, dentro da Faculdade de Direito, ajudou a devolver ao CACB seu papel de trincheira democrática, espaço de organização estudantil e resistência política.
Fundado em 27 de maio de 1926, o CACB recebeu o nome do jurista cearense Clóvis Beviláqua (1859-1944), autor do Código Civil brasileiro e professor da tradicional Faculdade de Direito do Recife. Ao longo de sua trajetória, a entidade tornou-se referência na defesa das liberdades democráticas e na formação de lideranças políticas e intelectuais.
Após o golpe militar de 1964, o Centro Acadêmico sofreu intervenção e passou a ser controlado por setores alinhados ao novo regime. A partir de 1966, contudo, uma ampla articulação democrática de estudantes conquistou a direção da entidade e devolveu ao CACB o protagonismo nas lutas estudantis da época.
Nós estivemos nessa caminhada. Em 1967, a presidência foi assumida por Volney Araújo, tendo como vice-presidente Inocêncio Rodrigues Uchôa. No ano seguinte, em 1968, Inocêncio foi eleito presidente do CACB, período em que José Arlindo Soares também passou a participar ativamente da vida do Centro Acadêmico. Não éramos apenas espectadores de uma conjuntura difícil, éramos jovens estudantes comprometidos com a universidade, o movimento estudantil e a defesa da democracia, atuando em uma instituição que se tornaria símbolo de coragem cívica.
O ano de 1968 marcou o auge da mobilização estudantil. Em sintonia com os movimentos que sacudiam universidades em diversas partes do mundo, o CACB transformou-se em um importante espaço de debates sobre os rumos do Brasil e da democracia. Sua sede acolhia reuniões, seminários e discussões que mobilizavam estudantes de diferentes faculdades, consolidando a entidade como uma referência do movimento estudantil cearense.
Ali estivemos, lado a lado com tantos companheiros e companheiras, organizando debates, acompanhando assembleias, produzindo ideias, jornais e panfletos, e articulando o diálogo com outras entidades estudantis. O CACB desempenhou papel decisivo na organização de manifestações, atos públicos e ações políticas contra a ditadura militar. Participou ativamente das grandes mobilizações que reuniram estudantes, setores da Igreja, sindicatos e parlamentares da oposição.
A Faculdade de Direito, naquele contexto, não era apenas uma escola de formação jurídica. Era também um lugar de consciência pública. E o CACB, entidade representativa consagrada, tornou-se ponto de encontro de uma juventude que se recusava a aceitar o silêncio como destino.
Com o endurecimento do regime e a decretação do AI-5, em dezembro de 1968, o Centro Acadêmico foi fechado e seus dirigentes e militantes passaram a sofrer perseguições políticas. Inocêncio Rodrigues Uchôa, então presidente da entidade, teve sua matrícula cassada na Faculdade de Direito sob a acusação de participação no Congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado naquele ano. José Arlindo Soares também teve a matrícula cassada, assim como José Genoíno, Pedro Albuquerque, Assis Aderaldo, entre outros estudantes atingidos pela repressão.
A repressão atingiu pessoas, interrompeu trajetórias acadêmicas, tentou calar vozes e desmontar formas legítimas de organização estudantil. Contudo, não conseguiu apagar a memória nem destruir o sentido histórico do CACB.
Somente em 1979, já sob os ventos da abertura política e da anistia, o Centro Acadêmico voltou a funcionar. A reabertura ocorreu sob a presidência do estudante João Alfredo Teles Mello, em uma cerimônia carregada de simbolismo. Naquele momento, Inocêncio Rodrigues Uchôa, último presidente eleito antes do fechamento, transmitiu oficialmente a direção da entidade à nova geração de estudantes.
Aquele gesto significava muito mais do que a retomada formal de uma organização estudantil. Era a afirmação de que a história do CACB não havia sido interrompida pela força. Simbolizava a recuperação das liberdades democráticas e do direito de organização dos estudantes, como também a reafirmação da continuidade histórica de uma instituição que resistiu à repressão e preservou sua identidade por décadas.
Ao celebrarmos o centenário do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, celebramos uma memória viva: os estudantes que vieram antes de nós, os que caminharam conosco e os que vieram depois, mantendo acesa a chama da participação estudantil, da defesa da democracia e da formação cidadã.
A história do CACB se confunde com momentos decisivos da vida política brasileira. Ela constitui parte fundamental da memória da Faculdade de Direito da UFC e do movimento estudantil cearense. Para nós, que participamos de um dos capítulos mais difíceis e mais intensos dessa trajetória, é também uma responsabilidade testemunhar.
Democracia não se sustenta apenas nas instituições formais. Ela também vive na coragem de quem se organiza, debate, resiste e não aceita a injustiça como normalidade. O CACB chega aos cem anos como retrato dessa resistência. Temos orgulho de ter feito parte dessa história.
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*José Arlindo Soares( FOTO)- Participou do CACB em 1968 e é o atual presidente do Centro Josué de Castro, no Recife (PE).
*Inocêncio Uchôa-Ex-presidente do CACB em 1968, é advogado e juiz federal do Trabalho aposentado.
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