Alto padrão imobiliário resiste

 

*Tânia Macedo

 

O setor imobiliário vem enfrentando desde a segunda metade de 2010 um ciclo de crises em que o mercado de alto padrão tem se mostra um oásis.

 

No panorama atual, esse descolamento acontece após um momento de recuperação, registrado entre 2020 e 2021, quando a taxa de juros declinante e inflação em baixa proporcionaram fôlego para uma reação em diversos segmentos do setor. O custo do financiamento foi determinante para esse movimento, relacionado à queda da Selic verificada de setembro de 2016 a setembro de 2020. Nesse período, a taxa atingiu o patamar histórico mais baixo (2%), num cenário de juros reais negativos (-1,11%).

 

Essa boa fase da cadeia foi interrompida no final de 2021, devido, em grande parte, à perda de controle sobre o processo inflacionário e às altas consecutivas de juros pelo Banco Central. Em Pernambuco, o Índice de Velocidade de Vendas da Fiepe mostra claramente essa desaceleração. O indicador começa a cair no último trimestre de 2021: 7,7% (setembro), 7% (outubro), 6,9% (novembro), 5,3% (dezembro) e 5,8% (janeiro/2022).

 

Considerando o cenário para 2022 – inflação, juros altos e insegurança causada pela sucessão presidencial – uma reversão dessa curva é pouco provável. O segmento de alto padrão, no entanto, tende a manter a resiliência.

 

A expectativa é que o mercado residencial de luxo até amplie o crescimento, como aponta o Indicador Abrainc-Fipe – produzido pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias e Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.O levantamento de março passado registra alta de 235% nos lançamentos de empreendimentos de médio e alto padrão no país. 

 

O que vem segurando esse desempenho, diante da retração da demanda por imóveis para investimento, é a procura de quem visa a aquisição para moradia. As análises apontam que as famílias com maior poder aquisitivo são as responsáveis por esse dinamismo. Essa tendência tem relação com a covid-19, que levou esse perfil de consumidor a buscar imóveis maiores e diferenciais como conforto, praticidade, qualidade de vida, proximidade de áreas verdes e espaço para home office.

 

No Recife, a demanda aquecida em Apipucos e no complexo Alphaville Francisco Brennand são exemplo do impacto dessa mudança de comportamento. Como explicar esse aquecimento num cenário setorial desfavorável? Simples: a decisão de compra pelo cliente potencial no segmento de alto padrão independe de questões conjunturais.

 

Portanto, à revelia da corrosão do poder de compra do consumidor médio, do financiamento caro e da instabilidade política, o mercado de imóveis de luxo será mais uma vez o ponto fora da curva em 2022, num contexto geral de incerteza e desestímulo em outros nichos.

 

*Tânia Macedo é CEO da Tânia Macedo Imóveis, referência no nicho de alto padrão no Grande Recife

Compartilhar