A sorte está lançada- por Eduardo de Azevedo e Souza*

 

A sorte foi lançada. A frase atribuída ao general romano Júlio César atravessou os séculos associada àquele momento em que a estratégia já foi executada, as escolhas foram feitas e resta esperar pelo resultado. Júlio César venceu a disputa que se seguiu, mas certamente não foi apenas uma questão de sorte. Houve estratégia, persistência, coragem e um grupo disposto a caminhar ao seu lado.

É justamente a estratégia que antecede o resultado que interessa aqui. Uma campanha eleitoral começa muito antes do voto e se constrói nas escolhas feitas ao longo do caminho, na capacidade de mobilizar um grupo, ocupar espaços, sustentar uma mensagem e insistir nela até o último momento. Quando as atividades de rua deste primeiro turno chegarem ao fim, na noite deste sábado (03/10), será possível olhar para a campanha conduzida pelo prefeito de Camaragibe, Diego Cabral (PSD), e identificar um roteiro que foi pensado e executado desde o início.

Diego decidiu não ser apenas mais um apoiador. Entrou de corpo inteiro na campanha, colocou seu peso político a serviço das candidaturas que escolheu e, principalmente, assumiu como uma de suas prioridades a defesa da reeleição da governadora Raquel Lyra.

Não foi uma campanha improvisada nem restrita aos grandes atos da reta final. Houve estratégia. Diego levou a disputa para as ruas desde o início e fez da presença uma das principais ferramentas de convencimento. Caminhadas, reuniões, encontros e mobilizações se sucederam durante semanas, numa campanha planejada para aproximar as candidaturas do eleitor e, ao mesmo tempo, associar essas escolhas ao projeto político que ele vem construindo em Camaragibe.

A escolha de Raquel ocupa um lugar central nessa estratégia. Coordenador de sua campanha na Região Metropolitana do Recife, Diego assumiu a tarefa de ampliar a presença da Onda 55, mobilizar lideranças e levar a candidatura da governadora para perto do eleitor. Mas seria pouco explicar tamanho empenho apenas pela função que recebeu na campanha. Há um interesse político e administrativo evidente na continuidade dessa relação.

Diego quer Raquel novamente no Governo porque encontrou no Palácio do Campo das Princesas uma parceria que conseguiu converter demandas antigas de Camaragibe em investimentos. E esse talvez tenha sido o argumento mais consistente que levou para as ruas. Em vez de pedir um voto sustentado apenas pela afinidade política, pôde apontar para obras, recursos e projetos que chegaram ao município durante a parceria entre as duas gestões.

A contenção de encostas, com investimento superior a R$ 31 milhões, talvez seja o exemplo mais emblemático. Mas não é o único. O novo Batalhão da Polícia Militar, os investimentos no Mercado Público, as creches e outras intervenções deram materialidade a uma relação política que Diego fez questão de apresentar durante a campanha. Quando pediu a continuidade de Raquel, portanto, não falou apenas do próximo mandato da governadora. Falou também do que pretende fazer nos próximos anos de sua própria gestão.

É aí que as duas campanhas se encontram.

Para Diego, reeleger Raquel significa preservar uma interlocução que funcionou para Camaragibe e manter abertas as portas de um governo com o qual conseguiu construir projetos e destravar investimentos. Há ainda obras em andamento, projetos por executar e novas demandas que dependem da capacidade de articulação entre município e Estado. Interromper essa parceria significaria, no mínimo, começar uma nova relação política e administrativa justamente quando a atual começou a produzir resultados mais visíveis.

Isso ajuda a explicar por que Diego se empenhou tanto.

Durante a campanha, não economizou capital político na defesa da governadora. Poderia ter declarado apoio, participado dos grandes atos e administrado à distância a condição de aliado. Escolheu fazer diferente. Foi para a linha de frente, levou a campanha para os bairros, mobilizou seu grupo e vinculou sua própria imagem à defesa da reeleição de Raquel. Ao fazer isso, transformou a eleição estadual também numa espécie de teste de sua capacidade de liderança em Camaragibe.

E Diego não colocou essa força apenas a serviço da candidatura ao Governo. Montou uma composição e apresentou ao eleitor um grupo que, na sua visão, pode ajudar Camaragibe em diferentes espaços de poder: João de Nadegi para a Assembleia Legislativa, Daniel Coelho para a Câmara Federal e Eduardo da Fonte e Túlio Gadelha para o Senado. Mais do que uma soma de candidaturas, tentou vender a ideia de uma rede política capaz de dar sustentação aos projetos que pretende desenvolver no município.

É uma aposta que envolve risco. Quando um prefeito pede votos com tamanha intensidade para um grupo, deixa de ser apenas um apoiador. Empresta seu prestígio, sua capacidade de mobilização e, sobretudo, a confiança que construiu com o eleitor. Diego fez exatamente isso. Colocou a própria palavra como aval das escolhas que apresentou.

“Esse é o grupo em que eu acredito e é para esse grupo que estou pedindo o voto de Camaragibe. Estou colocando a minha palavra nessas escolhas porque sei o quanto essas parcerias podem representar para a nossa cidade.”

Há, porém, um elemento nessa estratégia que não cabe nos cálculos de uma coordenação eleitoral. O carisma.

Retórica faz parte do ofício político. Pode ser estudada, treinada, aperfeiçoada. Quase todo político aprende, em alguma medida, a dominar um microfone, construir um discurso e encontrar as palavras certas diante de uma plateia. Carisma é outra coisa. Não vem escrito no roteiro, não nasce de uma boa peça de marketing e tampouco pode ser produzido por uma equipe de campanha.

Diego tem.

Nas ruas, isso aparece com mais clareza. Há políticos que precisam de um ato para produzir mobilização. Com Diego, muitas vezes, a própria presença ajuda a produzi-la. As pessoas se aproximam, as caminhadas ganham energia, surgem abraços, fotografias, brincadeiras e conversas que não estavam previstas em roteiro algum. É nesse contato que aparece uma característica que se tornou um dos principais ativos de sua vida política: a facilidade de estabelecer conexão com as pessoas.

E foi justamente esse ativo que Diego colocou a serviço de seu grupo nesta eleição.

Seu nome não está na urna. Talvez por isso o desafio seja politicamente ainda mais interessante. Ele não está pedindo ao eleitor que vote nele, mas que confie nas escolhas que ele fez. Tenta transformar presença em influência, proximidade em confiança e confiança em votos para candidatos que apresentou como parceiros de um projeto maior para Camaragibe.

Ao longo das últimas semanas, foi isso que esteve em jogo.

Diego ocupou as ruas, mobilizou sua militância, defendeu Raquel, apresentou seu grupo e procurou explicar por que essas escolhas interessam à cidade. Não apareceu apenas na reta final, quando as campanhas naturalmente aceleram. Fez da presença uma estratégia permanente e sustentou até o último dia a mesma mensagem que decidiu levar ao eleitor desde o início.

Agora, a campanha de rua chega ao fim e começa uma etapa sobre a qual nenhum líder político tem controle.

As escolhas foram apresentadas. As parcerias foram defendidas. O capital político foi colocado em jogo. Diego fez sua parte, assumiu riscos e apostou na relação que construiu com Camaragibe para tentar levar consigo o eleitor.

A sorte está lançada.

E, como no ponto de partida deste artigo, ela só entra em cena depois que a estratégia já foi executada.

No domingo, serão as urnas que mostrarão a resposta.

 

Os textos de artigos publicados neste blog são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.

* Eduardo de Azevedo e Souza é jornalista

E-mail: redacao@blogdellas.com.br/terezinhanunescosta@gmail.com

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