Debate SJCC: João Campos e Raquel Lyra confrontam vices e gestões; Ivan Moraes critica os dois
Último debate com candidatos ao Governo de Pernambuco teve embates sobre segurança, educação, saúde e infraestrutura a quatro dias do primeiro turno
Por Pedro Beija do JC
Os candidatos ao Governo de Pernambuco João Campos (PSB), Raquel Lyra (PSD) e Ivan Moraes (PSOL) confrontaram resultados de gestão, propostas e alianças políticas no último debate antes do primeiro turno das eleições, realizado nesta quinta-feira (1º) pelo Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC).
A maior parte dos embates diretos ficou concentrada entre a governadora e candidata à reeleição e o ex-prefeito do Recife. Raquel defendeu as entregas dos últimos quatro anos e questionou João sobre integrantes de sua chapa, enquanto o socialista comparou os resultados da administração estadual aos de sua passagem pela Prefeitura do Recife e direcionou críticas à gestão da adversária.
Ivan, por sua vez, buscou se diferenciar dos dois principais adversários e criticou tanto o governo estadual quanto a gestão de João no Recife. Ao longo do encontro, o candidato do PSOL tentou reforçar a ideia de que as duas candidaturas representam modelos semelhantes.
Nas apresentações iniciais, João usou como vitrine ações realizadas no Recife e prometeu levar programas para todo o Estado. Entre as propostas citadas estão a construção do Hospital Geral Metropolitano, com 900 leitos, uma rede de atendimento a crianças neurodivergentes, a ampliação das delegacias da mulher e o enfrentamento às facções criminosas.
“Isso é a facção entrando no Estado e precisa de um governador que valorize a polícia e que bote as facções para fora do nosso território”, afirmou, ao citar episódios registrados em comunidades da Zona Norte do Recife.
Raquel direcionou parte de sua fala às mulheres e reforçou o discurso de continuidade. A governadora afirmou que recebeu Pernambuco com problemas em áreas como saúde, segurança e infraestrutura e citou obras rodoviárias, hospitais e investimentos em abastecimento como resultados do mandato.
“Eu sei que a gente não foi capaz de chegar em todos os lugares, mas em cada recanto de Pernambuco tem a nossa marca”, disse a candidata à reeleição. Ao encerrar a apresentação, repetiu um dos slogans utilizados na campanha: “Me deixa trabalhar que eu sei fazer”.
Ivan apresentou a trajetória como militante, jornalista e ex-vereador do Recife e se colocou como uma alternativa aos dois adversários. Citou propostas como tarifa zero no transporte público, renda básica, um plano estadual para a cannabis e maior protagonismo da cultura e das políticas ambientais.
“Agora eu tô candidato a governador para dizer para você que dá para fazer diferente”, declarou Ivan.
Vices entram no centro do confronto
Um dos momentos de maior tensão ocorreu quando Raquel questionou João sobre Carlos Costa (Republicanos), candidato a vice-governador na chapa do socialista, e mensagens envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
“Eu preciso saber e Pernambuco também. Você sabia disso antes de convidá-lo para compor a sua chapa?”, perguntou Raquel.
João respondeu que Carlos já havia se manifestado sobre o assunto e afirmou que os serviços prestados eram regulares.
“Desde 2019 ele trabalha para a Febraban, a Federação dos Bancos no Brasil, e presta serviços para vários bancos de forma lícita”, declarou.
Na sequência, o socialista direcionou o confronto para a vice-governadora Priscila Krause (PSD). Citou questionamentos relacionados à Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns, que tem entre os sócios o marido de Priscila, e mencionou o pedido de impeachment apresentado contra a vice na Assembleia Legislativa.
“Quem deve explicações sobre vice é você, candidata”, atacou João.
O socialista também levou ao debate pagamentos feitos por uma agência de publicidade a uma empresa de Waldemiro Ferreira Teixeira, primo de Raquel, e cobrou explicações da governadora.
Raquel rebateu. Sobre o hospital, afirmou que a auditoria citada pelo adversário foi suspensa por decisão judicial e alegou haver indícios de direcionamento e má-fé na apuração.
“Deus é tão generoso que me permite hoje colocar esse assunto às claras”, iniciou. Em seguida, afirmou que a “fraude suposta” mencionada por João havia sido objeto de decisão judicial.
Sobre o primo, disse que o episódio não tem relação com a administração estadual. E voltou à carga contra Carlos Costa: “Pernambuco precisa saber se o senhor vai tirar o seu vice da chapa ou se vai manter”.
João encerrou o confronto retomando as comparações administrativas.
“Vocês percebem que ela não gosta de comparar a minha gestão como prefeito com a dela”, afirmou, antes de questionar as promessas de novos hospitais feitas pela governadora.
Gestão entra no confronto entre João e Raquel
As comparações entre os resultados das duas administrações atravessaram diferentes momentos do encontro e ficaram mais evidentes durante o debate sobre educação. João questionou Raquel sobre a cobertura do ensino integral, o número de estudantes na educação técnica e a posição de Pernambuco nos indicadores educacionais.
Raquel respondeu destacando o programa Juntos pela Educação e afirmou que 25 das 250 creches prometidas estão concluídas, com previsão de chegar a 100 até o fim do ano. Disse ainda que 15 das 30 escolas técnicas previstas estão em construção. João ironizou a frase e contestou o cronograma apresentado.
“Na verdade, a correta é: foi promessa e não foi feito, porque ela não fez”, disse. O socialista questionou ainda como o governo pretende entregar 100 creches até dezembro após ter concluído, segundo os números apresentados por Raquel, 25 unidades ao longo do mandato.
A governadora reagiu trazendo a gestão do Recife para o confronto, citando a obra do calçadão da praia de Boa Viagem.
“Quando eu começo uma obra, eu termino. Não é que nem a obra do calçadão de Boa Viagem”, afirmou.
Raquel também citou atrasos na entrega de fardamentos e kits escolares na rede municipal e questionou a capacidade de João de administrar a educação estadual.
“Se ele não conseguiu planejar e entregar sequer o fardamento escolar do Recife, nem o kit didático para os meninos, como pretende cuidar de 520 mil estudantes?”, questionou.
Compesa também vira alvo de embate
O abastecimento de água voltou a colocar João e Raquel frente a frente. O socialista questionou a governadora sobre o reajuste tarifário da Compesa previsto para novembro e pediu explicações sobre o desconto obtido na concessão.
Raquel confirmou que haverá reajuste, mas afirmou que a correção será inflacionária e negou que a data tenha sido escolhida em razão da eleição.
“Está previsto lá um reajuste inflacionário, sim, e que vai acontecer por conta contratual. Não é porque eu escolhi em novembro, depois das eleições”, disse.
A governadora defendeu a concessão parcial dos serviços da Compesa como necessária para ampliar investimentos e afirmou que a estatal permanecerá pública. João rebateu com uma comparação.
“É uma Black Friday. Aumenta o valor e dá o desconto”, afirmou. Segundo ele, o percentual de reajuste superaria o desconto oferecido no processo. Raquel respondeu que a prioridade deve ser garantir o abastecimento.
A política de abastecimento também serviu para Ivan confrontar Raquel Lyra, com novas críticas à concessão da Compesa. Ivan criticou a concessão dos serviços e a participação da BRK, citando o histórico da empresa no saneamento da Região Metropolitana.
“Água é um direito e por isso eu sou tão crítico à privatização da Compesa. Foi ruim a gente conceder parte do serviço da Compesa, que é um direito, a empresas internacionais”, afirmou o candidato do PSOL.
Raquel contestou a caracterização e afirmou que os recursos obtidos com a concessão foram destinados a um fundo de universalização.
“Todo esse dinheiro foi para este fundo e já está sendo usado para a universalização da água”, afirmou.
A governadora também disse que as empresas vencedoras estavam aptas a participar do processo. Ivan manteve a divergência.
“Onde houve privatização da água no mundo não deu certo. Eu acho que um recurso hídrico importante, que traz vida, não pode ser entregue na mão do mercado”, afirmou.
Ivan pressiona Raquel sobre disputa nacional
A disputa presidencial entrou no debate quando Ivan questionou Raquel sobre a diferença entre ter sido prefeita de Caruaru durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e governar Pernambuco durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Raquel destacou a relação construída com o governo federal e agradeceu a Lula por investimentos no Estado. A governadora citou obras e programas realizados em parceria com a União e reiterou sua estratégia de priorizar os interesses de Pernambuco.
“Eu fui ao presidente Lula na primeira semana de governo e pedi a ele que a gente pudesse trabalhar junto”, disse.
Ivan considerou a resposta insuficiente. Para ele, Raquel evita fazer uma diferenciação política mais direta entre Lula e o bolsonarismo.
“Você continua correndo dessa pergunta. Não dá para achar que Lula e Bolsonaro são duas vertentes políticas comuns. Não dá para normalizar o bolsonarismo”, declarou.
Raquel manteve a posição adotada ao longo da campanha, reforçando que “os interesses do povo de Pernambuco estão acima de tudo”, mas destacou que é “indiscutível” a “gratidão ao presidente Lula”.
Segurança coloca João e Ivan frente a frente
Segurança pública também esteve entre os principais temas. João questionou Ivan sobre a atuação de organizações criminosas e citou episódios registrados em comunidades da Zona Norte do Recife.
Ivan defendeu uma estratégia voltada ao rastreamento do dinheiro das organizações criminosas, à identificação de lideranças e ao combate à corrupção. O candidato do PSOL também criticou as condições de trabalho das forças de segurança e questionou João sobre a valorização dos policiais.
O socialista respondeu prometendo a valorização dos policiais militares, com reajuste do valor do PJES (Programa de Jornada Extra de Segurança) e aumento anual do salário da categoria. João associou a proposta à gestão do ex-governador Eduardo Campos.
Ivan aproveitou a tréplica para confrontar o histórico do adversário no Recife e criticou o armamento da Guarda Municipal no Recife e apontou diminuição do efetivo durante a gestão do socialista.
“Você não fez pela Guarda Municipal aquilo que está dizendo que vai fazer pela PM”, afirmou.
Também defendeu um plano de enfrentamento ao feminicídio que inclua educação sobre gênero nas escolas, ampliação das delegacias da mulher e políticas de autonomia.
Redação com assessoria Foto: JAILTON JR/JC IMAGEMreprodução
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