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Fé, desinformação e choque institucional: como a Padroeira do Brasil virou o centro da disputa presidencial de 2026

Viral sobre suposta intenção de Flávio Bolsonaro (PL) de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil provocou reações em cadeia

Por JC

Na reta final da corrida para a Presidência da República, a devoção religiosa no maior país católico do mundo transformou-se no epicentro de uma tempestade política e jurídica. Um boato viral sobre a suposta intenção do candidato Flávio Bolsonaro (PL) de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título oficial de Padroeira do Brasil provocou um alastramento de desinformação nas redes sociais, acionou os comandos de campanha e deflagrou um inédito embate de competências entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Da publicação inicial ao erro na TV

Segundo levantamentos de inteligência da campanha de Flávio Bolsonaro, a narrativa falsa começou a circular na noite de quarta-feira, 23 de setembro. O primeiro registro partiu de uma publicação do influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, criador do perfil governista “Dilma Bolada”, afirmando que “católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida”.

Poucos minutos depois, perfis replicaram a tese atribuindo a bancadas evangélicas uma suposta pressão sobre o senador.

A controvérsia atingiu escala nacional às 20h13 do dia seguinte (24), quando o programa Em Pauta, da GloboNews, abordou a existência de uma mobilização de setores evangélicos em torno do tema e a preocupação de bispos católicos.

Embora a fala no ar não citasse expressamente Flávio Bolsonaro, influenciadores e militantes em redes sociais associaram imediatamente a notícia ao candidato do PL. Horas mais tarde, o canal de notícias veiculou uma retratação pública, pedindo desculpas pelo erro e esclarecendo os fatos.

A origem real do texto legislativo citado na confusão remonta a dezembro de 2007, quando o então deputado federal Victório Galli (filiado na época ao MDB-MT e pastor da Assembleia de Deus) apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007.

A proposta pretendia alterar a redação do feriado de 12 de outubro para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Sem qualquer vínculo com a família Bolsonaro, o projeto foi arquivado definitivamente em agosto de 2008 por falta de amparo constitucional.

Apesar do desmentido factual e da retratação televisiva, a narrativa viralizou. Monitoramentos do Instituto Democracia em Xeque (IDX) e da consultoria Palver registraram quase 1 milhão de postagens e mais de 8,5 milhões de interações em menos de três dias.

A Palver apontou que 73% das menções nas redes abertas eram críticas ao senador, mobilizando o eleitorado católico — segmento considerado estratégico na eleição. Perfis alinhados ao governo Lula (PT) reforçaram a difusão do boato, levando a campanha do PL a pedir ao Ministério Público a prisão preventiva de George Marques da Silva e Silva, coordenador-geral na Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), por incentivar o compartilhamento da informação falsa mesmo após as retratações.

Decisões concretas no Judiciário: Mendonça (TSE) x Dino (STF)

Diante da explosão de conteúdos falsos, o caso migrou rapidamente para a esfera judicial, onde gerou decisões conflitantes entre instâncias superiores:

A decisão no TSE (Ministro André Mendonça): Na condição de vice-presidente do TSE, o ministro André Mendonça atendeu a um pedido da campanha do PL e reconheceu formalmente como “notoriamente inverídico o núcleo factual” que atrelava Flávio Bolsonaro à perda do título da padroeira. Mendonça determinou que plataformas digitais (Meta, X, TikTok e YouTube) removessem imediatamente mais de 1.100 publicações.

A decisão no STF (Ministro Flávio Dino): Em um desdobramento direto no STF, o humorista Antônio Tabet acionou a Corte contra a ordem de remoção do TSE. O ministro Flávio Dino acolheu o pedido de extensão de um precedente e liberou as postagens derrubadas. Dino fundamentou sua decisão na histórica ADPF 130 (julgado de 2009 que derrubou a Lei de Imprensa da ditadura e vetou a censura prévia), sustentando que a liberdade de expressão é pré-condição democrática e que eventuais abusos devem ser corrigidos por meio de retificação, direito de resposta ou indenização, e não por remoção preventiva de conteúdo.

O choque institucional e as reações: A liminar de Dino provocou forte reação da chapa de Flávio Bolsonaro. Em nota oficial, a campanha expressou “perplexidade” com a cassação das ordens da Justiça Eleitoral por um órgão externo. O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha do PL, acusou o ministro do STF de “atropelar regras de competência” e criar uma “jurisprudência de conveniência” para manter no ar conteúdos falsos e favorecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

O que dizem os candidatos e lideranças políticas

O episódio provocou posicionamentos públicos imediatos de postulantes e caciques políticos de diferentes espectros:

Flávio Bolsonaro (PL): Classificou a alegação como uma “mentira grosseira”. Em agenda oficial no Rio de Janeiro, o senador afirmou respeitar todas as religiões e negou qualquer intenção de alterar o status de Nossa Senhora. Flávio rebateu acusações criticando o adversário: “Jamais vou falar para a Igreja Católica a forma que os padres têm ou não que induzir. Isso não é papel do Estado se meter na igreja, como o Lula faz”, declarou, ironizando ainda a postura do presidente ao dizer que “Lula vira cristão a cada quatro anos”.

Geraldo Alckmin e Fernando Haddad (Chapa Governista / PT): O vice-presidente Geraldo Alckmin gravou um vídeo direcionado a “católicos preocupados”, garantindo que “enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este País, as tradições religiosas estarão protegidas e preservadas”. Em São Paulo, o candidato ao governo paulista **Fernando Haddad (PT)** acusou Flávio Bolsonaro de alimentar a “intolerância religiosa” e tentar “colocar um brasileiro contra o outro”.

Ronaldo Caiado (PSD): O candidato à Presidência cumpriu agenda festiva e religiosa na Paróquia Nossa Senhora Aparecida e Santa Edwiges, em Goiânia, onde repudiou o “enfrentamento político-religioso”. “Eu sou católico praticante (…) A campanha entrou em um ambiente de intolerância que precisa ser contido. Não podemos, de maneira nenhuma, politizar esse processo e muito menos caminhar para um lado de enfrentamento”, defendeu o goiano, afirmando que o uso eleitoral da fé “distorce o bom senso e o equilíbrio”.

Redação com texto do JC/Com informações do Estadão Conteúdo Foto: reprodução/internet

e-mail: redacao@blogdellas.com.br

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