Crise no STF pode atingir Lula, mas economia ainda pesa mais para o eleitor, avalia cientista político

Ernani Carvalho afirma que desgaste do Supremo pode ter efeitos eleitorais, mas situação econômica deve pesar mais para a maioria dos eleitores
A crise aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) após a disputa envolvendo relatórios de inteligência produzidos pela Polícia Federal ganhou nesta quarta-feira (9) uma dimensão que ultrapassa os limites do Judiciário e começa a ser observada também pelo campo político.A avaliação é do cientista político Ernani Carvalho, que analisou o cenário durante entrevista à Rádio Jornal.
A tensão aumentou nos últimos dias depois que o ministro André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, além de ordenar a suspensão da produção e do compartilhamento de determinados relatórios de inteligência.
Menos de 24 horas depois, o ministro Flávio Dino cassou a decisão e determinou o retorno dos dois dirigentes aos cargos.
Para Ernani Carvalho, o episódio precisa ser compreendido dentro de um processo mais amplo: o aumento da influência do STF sobre decisões que tradicionalmente estavam concentradas nos Poderes Executivo e Legislativo.
Segundo ele, essa percepção já chegou ao eleitorado. “Essa perspectiva de que o Supremo hoje faz parte do sistema político, ela está dada.”
Na avaliação do professor, a crescente presença do Supremo em temas fiscais, políticos e federativos fez com que a Corte passasse a ser percebida como um ator relevante da política nacional.
É nesse ambiente que a crise envolvendo a Polícia Federal, os ministros do STF e os relatórios de inteligência pode ganhar consequências para o governo federal.
Carvalho pondera, no entanto, que ainda é cedo para dimensionar o efeito eleitoral da crise. O cientista político chama atenção para o fato de que a disputa presidencial já apresenta movimentos próprios, independentemente do conflito institucional.
Ele afirma que a distância entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus adversários começa a mudar em algumas pesquisas e atribui parte importante desse movimento a outro componente: a economia.
Economia ainda é o principal termômetro
Apesar da gravidade da crise no Supremo, Ernani Carvalho avalia que o eleitor médio tende a tomar suas decisões principalmente a partir de questões concretas do cotidiano. Para ele, o desempenho econômico continua sendo um dos fatores mais importantes em eleições e processos de reeleição.
A avaliação não significa, porém, que a crise institucional seja irrelevante. Carvalho reconhece que o atual episódio tem características incomuns e pode produzir um desgaste reputacional significativo para o Supremo, e, por consequência, para políticos identificados com a Corte.
O cientista político classificou o momento como uma crise de grandes proporções, lembrando a manifestação pública de ministros e ex-ministros do STF em defesa de uma solução para o impasse.
“Eu não estou dizendo que esse caso agora, que está acontecendo no STF, que é inédito, uma crise de proporções alarmantes.”
Para ele, o ponto central agora é saber como o próprio Supremo conseguirá responder ao conflito e recuperar estabilidade institucional.
“Como é que a Corte vai dar resposta a esses problemas que estão surgindo? Então, isso é uma preocupação, hoje, que ganha contornos dramáticos.”
Na visão de Carvalho, os efeitos eleitorais podem aparecer mais adiante, especialmente se a crise não for rapidamente acomodada.
“Isso pode, lá na frente, impactar de forma mais decisiva a eleição? Pode. Eu diria que, no momento, eu acho que isso ainda não foi acomodado.”
Lula e Alexandre de Moraes
A crise também coloca o presidente Lula diante de uma escolha política delicada. Questionado se o chefe do Executivo estaria abandonando o ministro Alexandre de Moraes ou se ainda trabalharia para preservar sua posição dentro do STF, Ernani Carvalho avaliou que o presidente tem interesses que vão além do episódio atual.
A relação entre Executivo e Supremo, segundo ele, precisa ser analisada também a partir das transformações ocorridas no presidencialismo de coalizão brasileiro. Com o fortalecimento do Congresso e do Judiciário, o presidente teria perdido parte da capacidade de controlar sozinho a agenda política.
“O presidente precisa ampliar as suas alianças dentro desses poderes para poder governar.”
Nesse cenário, o cientista político considera que Lula tende a preservar, enquanto puder, uma relação próxima com o STF. Isso ocorre não apenas por causa da eleição, mas também pela necessidade de garantir condições de governabilidade em um ambiente em que o Executivo depende de negociações permanentes com os demais Poderes.
“O presidente sabe que, mais do que resolver um problema de crise, um bom alinhamento com o Supremo Tribunal Federal significa também governabilidade futura.”
Para Carvalho, Lula estaria, portanto, administrando simultaneamente dois interesses: o cálculo eleitoral de 2026 e a necessidade de manter uma base institucional que permita ao governo continuar funcionando.
“Então, ele está com os dois olhares, um sistema eleitoral e outro no governo, pós as eleições.”
Presidente deve evitar rompimento imediato
Na avaliação do cientista político, a postura de Lula diante de Alexandre de Moraes não deve mudar de maneira abrupta. O presidente, segundo Carvalho, teria optado por uma posição de retaguarda justamente para evitar um rompimento que poderia comprometer sua relação com o Supremo.
“O presidente não fez isso. Foi o único candidato que não fez isso, que se mantém aí numa retaguarda e isso tem a ver com essa estratégia do presidente ter o Supremo como um aliado de primeira ordem.”
A estratégia, porém, não seria ilimitada. Carvalho considera que uma escalada da crise poderia alterar o cálculo do Palácio do Planalto.
“Então, ele era visto, imagino, como um grande herói da resistência pelo que ele fez no 8 de janeiro, etc. Então, isso tem impacto e acho pouco provável que o desfecho fosse largar-se em mão de uma hora para a outra.”
A possibilidade de mudança de postura, segundo ele, dependeria do grau de deterioração do cenário. “Eu acho que isso só vai acontecer se os contornos se tornarem bastante dramáticos.”
O diagnóstico deixa uma questão aberta para os próximos capítulos da crise: enquanto o STF tenta administrar um conflito que envolve seus próprios ministros, a Polícia Federal e a disputa sobre o uso da inteligência, o governo Lula precisa calcular até onde vale a pena preservar sua proximidade com a Corte sem absorver parte de seu desgaste.
Para Ernani Carvalho, entretanto, o impacto político imediato ainda não está definido. Antes que a crise institucional se transforme em fator determinante para a eleição, será preciso observar sua duração, seus desdobramentos e, sobretudo, se ela chegará ao cotidiano do eleitor.
Redação om textode Ryann Albuqurque do JC Foto: reprodução
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