Advogado de Amisadai aciona PF e diz suspeitar de “armação” em gravações sobre suposto “gabinete do ódio”
Em coletiva, defesa informou solicitação à PF para apurar origem das gravações e realização de perícia para verificar possível manipulação de áudios
Por Pedro Beija do JC
O advogado de Amisadai Andrade, Luiz Rocha, protocolou, nesta terça-feira (1º), uma notícia-crime na Polícia Federal (PF) e pediu a realização de perícia nas gravações que embasaram a denúncia sobre uma suposta rede de ataques contra o candidato ao Governo de Pernambuco João Campos (PSB).
A defesa sustenta que Amisadai pode ter sido alvo de uma “armação” e entregou à corporação números de telefone, locais, datas e outras informações que, segundo Rocha, podem ajudar a esclarecer a origem do material. Luiz Rocha é candidato a deputado federal pelo Novo, partido que apoia a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD).
Durante coletiva em frente ao edifício anexo da PF, no Bairro do Recife, o advogado afirmou que “tudo leva a crer” que Amisadai tenha sido provocado ao longo de meses por uma pessoa interessada em produzir as gravações posteriormente divulgadas.
O caso veio à tona após reportagem exibida pela TV Record, no último dia 25, que apontou Amisadai como responsável por uma rede de páginas e perfis utilizada para publicar conteúdos contra João Campos. Em um dos vídeos divulgados na reportagem, ele aparece afirmando ter mantido contato com integrantes do Governo do Estado e dizendo que o grupo do qual fazia parte teria sido visto como um “canal para tentar desidratar” o então adversário da governadora.
As revelações passaram a embasar acusações feitas por João Campos e pela Frente Popular de Pernambuco, coligação que sustenta a candidatura do socialista, sobre a existência de um suposto “gabinete do ódio” ligado ao Governo de Pernambuco. A Frente Popular também levou o episódio a órgãos de investigação e à Justiça Eleitoral.
Raquel Lyra tem negado as acusações e rechaçado a existência de uma estrutura destinada a promover ataques contra adversários políticos.
Defesa pede perícia e questiona trechos das gravações
Na notícia-crime apresentada nesta terça, a defesa pediu que a Polícia Federal requisite à emissora os arquivos que deram origem à reportagem e realize uma perícia nos áudios.
Segundo Luiz Rocha, Amisadai afirma não reconhecer algumas das frases que lhe foram atribuídas. O advogado levantou hipóteses de cortes descontextualizados, manipulação eletrônica ou até fabricação de trechos com uso de ferramentas de inteligência artificial, mas não apresentou, durante a coletiva, provas de que alguma dessas intervenções tenha ocorrido.
“Um dos pedidos que está contido na peça, na notícia-crime, é de perícia em todos os áudios e a requisição do áudio à emissora que fez a primeira divulgação”, afirmou.
A defesa pretende, segundo Rocha, identificar a íntegra das gravações, os cortes realizados e a sequência original das conversas. Apesar de questionar parte do material, a defesa não nega integralmente as falas de Amisadai.
Defesa diz que Amisadai reconhece ter utilizado “linguagem imprópria” e exagerado sobre influência
Luiz Rocha afirmou que o cliente reconhece ter utilizado uma “linguagem imprópria” e exagerado ao tentar demonstrar uma influência junto ao Governo de Pernambuco que, segundo o próprio advogado, ele não possuía.
“Amisadai reconhece que se excedeu com uma linguagem imprópria, com falas impróprias, ao tentar demonstrar um trânsito, uma influência no governo que nunca teve”, declarou.
Em outro momento, Rocha reforçou que Amisadai teria tentado “parecer maior” e demonstrar “influência e trânsito no governo que ele de fato nunca teve”.
Segundo o advogado, no entanto, o ex-servidor não aceita que essas declarações sejam utilizadas para atribuir a ele crimes ou a participação em uma estrutura organizada para atacar adversários políticos.
Contatos iniciados em 2024
Luiz Rocha também apresentou uma versão sobre a origem das gravações. De acordo com ele, os contatos começaram ainda em 2024, quando Amisadai era sócio do Portal da Prefeitura e ainda não ocupava cargo no Governo de Pernambuco.
O advogado afirmou que Amisadai teria sido procurado por um homem que apresentou como ligado à direção estadual de um partido político em São Paulo. Durante a coletiva, Rocha decidiu não revelar a identidade do interlocutor e utilizou o nome fictício de “Ulisses”.
Segundo a versão da defesa, o homem teria procurado o portal para discutir uma parceria destinada à publicação de conteúdos de interesse político. As tratativas teriam envolvido conversas telefônicas e três reuniões presenciais realizadas em um hotel no Recife.
Rocha afirmou ainda que, em determinado momento, o interlocutor teria solicitado dados de audiência do portal e pedido a republicação de uma matéria como teste para medir o alcance da página.
A defesa sustenta que os contatos se prolongaram entre 2024 e o primeiro semestre de 2025 e depois foram interrompidos. Rocha levantou a suspeita de que o conteúdo produzido durante as conversas tenha sido guardado para divulgação apenas durante a campanha eleitoral de 2026.
Questionado diretamente se considerava que Amisadai havia sido alvo de uma “armação”, o advogado respondeu: “Tudo leva a crer que sim”.
A afirmação é uma hipótese levantada pela defesa. Caberá à Polícia Federal decidir se os elementos apresentados justificam a abertura de uma investigação e, posteriormente, verificar a versão apresentada por Amisadai.
Ainda não há inquérito instaurado
O próprio Luiz Rocha ressaltou que o protocolo realizado nesta terça-feira não significa que exista, neste momento, um inquérito da Polícia Federal sobre o caso.
Segundo ele, a notícia-crime será analisada pela corporação, que deverá decidir se há elementos suficientes para formalizar uma investigação.
“A partir de agora poderá existir. Primeiro é preciso o delegado federal e a superintendência aqui em Pernambuco admitir a notícia-crime como algo palpável, concreto a ser investigado”, afirmou.
Na última semana, após a divulgação da reportagem da Record, a Polícia Federal havia informado ao Jornal do Commercio que não havia registro de inquérito instaurado sobre o episódio.
Rocha disse que a documentação protocolada contém informações como telefones utilizados nos contatos, datas, locais e referências aos encontros que, na avaliação da defesa, poderão ser verificados pela PF.
A notícia-crime também menciona pessoas que, segundo o advogado, teriam relação com os fatos narrados. Rocha não revelou os nomes e afirmou que o pedido tramita sob sigilo.
“Não é feita acusação. Uma notícia-crime a gente não faz acusação, a gente faz apontamento de pessoas que estão no entorno”, declarou.
Amisadai nega reunião com Raquel para tratar de ataques
Luiz Rocha também negou que Amisadai tenha participado de reuniões com Raquel Lyra destinadas à definição de ataques contra adversários políticos.
Segundo o advogado, Amisadai admite ter estado no Palácio do Campo das Princesas, inclusive para tratar de assuntos relacionados à Secretaria de Comunicação e à sua nomeação para um cargo no Governo, mas nega ter se reunido diretamente com a governadora para discutir estratégias eleitorais ou ações contra João Campos.
“Ele afirma que nunca sentou com a governadora para esse fim específico ou para receber orientação por qualquer motivo”, disse.
Amisadai assumiu, em abril de 2025, o cargo de superintendente de Operações da Arena de Pernambuco, ligada à Secretaria de Turismo e Lazer. Ele foi exonerado pelo Governo do Estado na última semana, um dia após a divulgação da reportagem da Record.
A defesa também contesta a informação de que Amisadai teria sob seu controle cerca de 300 perfis utilizados para ataques políticos. Segundo Rocha, o cliente nega ter administrado uma rede desse tamanho e afirma que a referência feita nas conversas teria relação com alcance ou seguidores de páginas.
Durante a coletiva, o advogado ainda apresentou referências a contatos de Amisadai com João Campos e ao fato de o Portal da Prefeitura ter prestado serviços ao município do Recife. Ao ser questionado sobre a existência de uma relação entre os dois, entretanto, Rocha afirmou não possuir informações suficientes para caracterizá-la além de um vínculo que classificou como profissional.
O advogado também fez críticas políticas ao PSB e declarou solidariedade a Raquel Lyra pelos ataques sofridos recentemente durante a campanha.
Luiz Rocha foi alvo de processo disciplinar no CNJ
Antes de atuar na advocacia e ingressar na disputa eleitoral, Luiz Rocha foi juiz do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Em 2023, a Corregedoria Nacional de Justiça abriu procedimento para apurar a conduta do então magistrado por suspeitas de atividades incompatíveis com a função.
À época, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que Rocha era investigado por eventual “autopromoção e superexposição em redes sociais”, além de manifestações político-partidárias. O procedimento também apurava a divulgação de peças publicitárias com a imagem e a logomarca do magistrado e sua participação em lives, redes sociais e emissoras de rádio e televisão na condição de juiz.
Em 2024, Luiz Rocha pediu aposentadoria voluntária da magistratura, que foi concedida. Mesmo sem exercer a função desde então, ele disputa uma vaga de deputado federal pelo Novo utilizando “Juiz Luiz Rocha” como nome de urna.
O processo administrativo disciplinar continuou após a aposentadoria. Em outubro de 2025, o conselheiro relator Pablo Coutinho Barreto julgou procedente o PAD e aplicou a Luiz Rocha a penalidade de censura, com determinação para que a sanção fosse registrada em seu histórico funcional.
Na decisão, o relator classificou as condutas como de “média gravidade” e considerou a censura uma medida adequada e proporcional. Barreto ressaltou que a aposentadoria voluntária impedia repercussões práticas sobre o vínculo funcional já encerrado, mas não afastava o reconhecimento da infração disciplinar nem seu registro.
redação com texto de Pedro Beija do JC Foto: reprodução
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