João Carlos Paes Mendonça: “A ameaça social da Inteligência Artificial e a falta de um plano de desenvolvimento”

É imperativo encontrarmos outro nicho de empregabilidade onde o contato humano seja um dos pontos de valor da cadeia
Por João Carlos Paes Mendonça
Sigo cada vez mais impressionado, e igualmente interessado, com as possibilidades que o mundo expõe no uso da Inteligência Artificial, algo que tem se tornado, ao menos teoricamente, mais acessível a cada dia. Ao mesmo tempo, surge outro questionamento: quais serão as consequências para a população de algo tão transformador quanto o que estamos assistindo agora. Para evitar um problema social com a perda de espaço no mercado de trabalho para funções rotineiras e previsíveis, é preciso agir urgentemente, com um plano de Estado competente, consistente, contínuo e sem contaminações dessa ou daquela corrente política.
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que um a cada quatro postos de trabalho será impactado pela IA. Outra análise, feita com dados do FMI, da OIT e do Banco Mundial, focada em aprofundar os riscos da IA para trabalhadores em situação de vulnerabilidade, estimou em 37 milhões o número de brasileiros que poderão ser impactados de alguma forma. Outros 2 milhões correm risco de automação completa de seus postos.
Com tarefas mecânicas assumidas pela IA, e o Brasil sendo um país em que o nível educacional da população ainda é baixo, a questão social se torna ainda mais complexa do que em outros países. No Nordeste, o analfabetismo afeta 13% da população, o maior indicador entre as regiões. Dados também apontam que menos de 30% dos brasileiros possuem habilidades digitais, o que agrava o desafio de inserção e permanência no mundo do trabalho diante do avanço da Inteligência Artificial.
Faço essa análise, não para reforçar a problematização, mas porque é preciso planejamento para iniciar uma jornada de enfrentamento de uma questão que tende a se agravar tão rapidamente quanto a própria evolução tecnológica.
Podemos lançar um olhar sobre nosso passado para perceber que já superamos grandes desafios a partir da decisão de encará-los ao contrário de só assistirmos. Durante décadas, nossa agricultura foi um exemplo de alta empregabilidade quando o Brasil mais precisava. Em 1985, quando eu presidia a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e o Brasil importava grãos em meio a uma produção estimada em 50 milhões de toneladas, debatíamos muito sobre o tema, visando impulsionar a agricultura, cuja capacidade de contratação era elevada, ao mesmo tempo em que o País necessitava ampliar o abastecimento. O assunto também permeava alguns debates dentro do Conselho Monetário Nacional. No início de 2020, a produtividade por hectare ficou três vezes maior, em grande parte a partir da contribuição tecnológica da Embrapa, empregando milhares de pessoas durante décadas e alcançando 350 milhões de toneladas. Hoje, a tecnologia também vem transformando o modelo operacional do campo, tirando pessoas e inserindo drones, entre outras inovações.
É imperativo encontrarmos outro nicho de empregabilidade onde o contato humano seja um dos pontos de valor da cadeia, tendo em vista, inclusive, avanços de funções desempenhadas por robôs. Os governantes responsáveis por liderar e estruturar discussões e iniciativas, precisam atuar com celeridade e seriedade, fortalecendo setores mais dependentes da presença de pessoas, a fim de promover uma transição de mercado menos traumática.
Um país com a dimensão continental como a do Brasil e onde praticamente todos os Estados têm potencial turístico, com destaque para o rico litoral, sobretudo o Nordestino, águas mornas e belezas naturais capazes de competir com muitos ícones mundiais, o desenvolvimento eficiente do turismo poderia ser um caminho para gerar riquezas e empregos. E seria um desenvolvimento equânime diante do potencial que percorre desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul.
Mas para isso, dependemos da força do Estado em dotar as regiões de infraestrutura, estradas, saneamento, energia, portos, aeroportos, e de segurança para todos. Todo o mais, a natureza já fez com afinco no Brasil e pode elevar a visita de cidadãos do mundo todo, o ano inteiro.
Feita a base estrutural, será a vez da iniciativa privada ampliar sua participação, com investimentos em hotéis, estrutura de entretenimento, serviços e em toda a cadeia econômica que, além de gerar receita para os Estados, cria demanda por pessoas dedicadas a lidar com pessoas, algo que o país faz de forma tão competente quanto singular. Mas, para que isso dê certo, é preciso um plano de Estado contínuo, algo que, infelizmente, ainda não experimentamos plenamente no Brasil. É imperativo o governo refletir agora e agir.
Redação com artigo de João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação compartilhado do JC em 23/04/2026
e-mail: redacao@blogdellas.com.br


