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A filiação de Túlio Gadêlha e o passo a passo de Raquel Lyra para quebrar polarização no estado

A Governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB), e o deputado federal Túlio Gadelha (Rede) em Brasília. – Kauê Pinto/Divulgaçâo

Será que a campanha de 2026 pode repetir a polarização que caracterizou os 16 anos de poder do PSB, agora que petistas e socialistas se juntaram?

Entre os anos de 2002 e 2022, quando o presidente Lula conseguiu, após várias tentativas, seu primeiro mandato de presidente e eleger sucessores como Dilma Rousseff, que o estado de Pernambuco vivenciou eleições polarizadas nas quais uma aliança tática da esquerda, representada pelo PSB e PT, utilizou a força eleitoral do presidente para jogar os adversários para o campo da direita, tornando quase impossível a conquista do Governo por líderes que não fossem socialistas. Isso explica porque em 16 anos o PSB venceu seguidas eleições: duas com o ex-governador Eduardo Campos e duas com o ex-governador Paulo Câmara.

A maior vítima da polarização desse período foi o ex-governador Jarbas Vasconcelos acusado pelos socialistas e petistas no interior – onde o nome de Lula é mais forte – de ser contra o bolsa família e outras políticas compensatórias. Mesmo tendo sido perseguido pelo regime militar, Jarbas era pintado como um direitista capaz de acabar com o bolsa família o que o fez perder representatividade para eleger sucessores.

Em 2022, no entanto, o desgaste do PSB chegou a tal ponto que a tática foi superada pela realidade com muitos candidatos ao Governo tanto do lado da esquerda quanto do lado do centro e da direita, o que acabou levando a governadora Raquel Lyra a vencer a eleição, mesmo sem o apoio de Lula que, no primeiro turno, apoiou Danilo Cabral e no segundo, Marília Arraes, ambos derrotados.

A força da militância e o voto Luquel

Na época, os desentendimentos, que já eram claros, entre o PT e o PSB provocaram um fenômeno inusitado no segundo turno quando grande parte da militância petista e socialista decidiu criar um movimento chamado Luquel, com voto em Lula presidente e Raquel governadora. Os petistas não tinham engolido o fato do PSB ter preterido a candidatura de Humberto Costa para governador, decidindo optar por Danilo Cabral que acabou em quatro lugar. Esses petistas estavam insatisfeitos porque Humberto Costa não tinha sido candidato a governador. Já os socialistas queriam derrotar Marília Arraes, a adversária de Raquel, a quem responsabilizaram pela derrota de Danilo.

Depois desse hiato de 2022, a campanha de 2026 pode repetir a polarização que caracterizou os 16 anos de poder do PSB, agora que petistas e socialistas se juntaram em um palanque totalmente de esquerda? Esse tem sido um assunto recorrente nos corredores da Assembleia Legislativa e ganhou maior dimensão depois que o prefeito João Campos abortou entendimentos da governadora Raquel Lyra com Marília Arraes e Silvio Costa Filho, fechando sua chapa às pressas e cravando que a mesma é a “chapa de Lula”, o que tem sido repetido por Humberto Costa e Marília Arraes, seus candidatos ai Senado.

Uma pedra no meio do caminho

“ Este pessoal está achando que Raquel não se precaveu? Vão dar com os burros n’água”- comentou esta semana um deputado estadual governista, frequentador assíduo do Palácio do Campo das Princesas, ao festejar o anúncio da filiação ao PSD do deputado federal Túlio Gadelha que anunciou de imediato ser “senador de Lula” e disposição para aceitar o convite que lhe foi feito pela governadora para disputar o Senado na sua chapa. Em Caruaru, onde se filiou, ele ainda contou detalhes da articulação entre o Palácio do Campo das Princesas e o Palácio do Planalto para que aceitasse deixar a Rede, seu partido, e se filiar à legenda de Raquel.

Na verdade, já corria há um certo tempo nos bastidores do Palácio das Princesas a informação de que Lula desejaria ter dois palanques em Pernambuco e prometera a Raquel colocar um carimbo dele no seu palanque.

Acabou no nome de Túlio que apoiou Raquel no 2º turno de 2022. Quem acompanhou de perto a articulação da governadora com o presidente conta que não foi surpresa a decisão de Lula de concordar com o nome de Túlio para representá-lo e da ausência na inauguração do Hospital da Criança esta sexta-feira onde ouviria o discurso de pré-candidato a governador do prefeito João Campos, estreitando os laços entre ambos. Preferiu cumprir agenda na Bahia, onde estava Rui Costa, o articulador do apoio a Raquel.

Começou pelos ruralistas

Poucas pessoas entenderam o porquê mas, logo após a sua posse, a governadora começou a ternurar Lula e o PT, cumprindo passo a passo, como afirmam assessores seus, a abertura de caminhos pela esquerda para seu projeto desenvolvimento do estado. Seu primeiro compromisso fora do Palácio foi uma visita à Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape) um reduto petista que tem nos deputados estaduais Doriel Barros e Rosa Amorim e no federal Carlos Veras, sua representação legislativa.

Passou a atender diretamente as demandas dos trabalhadores rurais estreitando o relacionamento com os “ruralistas” como são chamadas as lideranças petistas com força no interior.

Em seguida foi a vez de se aproximar do deputado estadual João Paulo Silva, do PT, com inserção metropolitana e que garantiu a permanência da bancada petista na base de apoio do Governo na Alepe. O trabalho nesse campo teria levado os três parlamentares a não comparecerem ao evento de apoio do PT ao prefeito João Campos e a defenderem o voto Luquel, acenando para a prática dos dois palanques para o presidente. Também veio daí o apoio que a governadora tem hoje de quatro dos seis prefeitos petistas do estado.

A aproximação com Lula se deu com a ajuda do ministro da Casa Civil, Rui Costa, que garantiu a Pernambuco grandes investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) por ele comandado, e dos ministros Renan Filho, dos transportes e Jader Filho, das Cidades. Antes de se desincompatibilizar para disputar o Senado, Rui fez o último gesto a favor da governadora assegurando a presença de Túlio Gadelha em seu palanque.

Xadrez político

Raquel conseguirá com todas essas iniciativas fugir da articulação do prefeito João Campos para isolá-la na direita, já que inevitavelmente terá votos dos conservadores estaduais? A cientista politica Priscila Lapa afirma que manter-se longe da polarização “é um grande xadrez político que a governadora tem a equacionar”. Para ela “a posição de maior neutralidade de Raquel, fugindo da pecha de ser uma candidata lulista ou bolsonarista, lhe permite maior liberdade na construção do palanque que contemple os diversos segmentos da sociedade mas tem um custo político a ser administrado”.

-“ A presença de Túlio Gadelha no seu palanque – afirma – ajuda a neutralizar o discurso central da campanha de João Campos que montou uma chapa esquerdista. Mas ela vai precisar lidar com as cobranças por parte de aliados importantes que não desejam que ela se incline demasiadamente para a esquerda. Essa vai ser uma luta permanente e desafiadora”- adverte.

Redação com texto de Terezinha Nunes compartilhado do JC em 05/04/2026 Foto: reprodução Jc

e-mail: redacao@blogdellas.com.br

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