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Homenagem a Lula na Sapucaí : uma comemoração que virou provocação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, no camarote oficial da prefeitura na Marquês de Sapucaí

Se por trás de quem teve a ideia de incentivar o desfile em homenagem ao presidente estava implícito o interesse de ajudá-lo, o tiro saiu pela culatra

Por Terezinha Nunes

Menino retirante do agreste pernambucano, o presidente Lula é um verdadeiro exemplo da sobrevivência do nordestino. Muito pequeno, viajou mais de 3 mil quilômetros em um pau-de-arara com a mãe e os irmãos para São Paulo e, apesar de todas as dificuldades que a vida lhe reservou, é hoje, pela terceira vez, presidente da República. Com esse enredo qualquer escola de samba poderia sagrar-se campeã do carnaval carioca sem precisar de recursos públicos nem apelações de qualquer natureza. Bastava mostrar com maestria, como quase todas sabem fazer, a saga de um menino carente que virou presidente.

Mas o que se viu na Marquês de Sapucaí na abertura do primeiro dia de desfile das escolas de samba no carnaval deste ano foi uma comemoração que virou provocação. Se a intenção dos assessores do presidente era mostrá-lo do alto dos seus 80 anos como um verdadeiro herói da resistência, um pai dos pobres, um guardião da democracia, esses atributos, que não deixaram de estar presentes ao longo do desfile, foram completamente suplantados pelas provocações de toda natureza retratadas por sambistas no asfalto e nos carros alegóricos.

Volta ao Planalto deu xabu

A própria volta triunfante do presidente ao Palácio do Planalto em 2023 perdeu todo sentido com o uso do palhaço Bozo para representar o ex-presidente Jair Bolsonaro que, em outra ala, apareceu preso mas também vestido de palhaço, e da apresentação do ex-presidente Michel Temer como um golpista responsável pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Mas as provocações continuaram com a ala “neoconservadores em conserva” que trazia sambistas vestidos de lata de conserva depreciando a família tradicional.

O que Lula ganhou com este desfile ? Nem o PT se arriscou a responder a essa pergunta feita por todos os comentaristas políticos de norte a sul do País. Poucos petistas foram às redes sociais tentar justificar o desfile mas nenhum deles com relevância política. O próprio deputado federal Lindbergh Farias, na falta de ter o que falar ou exaltar, acabou tentando um contra-ataque indo ao TSE representar contra o ex-ministro Gilson Machado e o pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro pela distribuição de alguns adesivos em Pernambuco durante o carnaval.

Culpa de quem

Se por trás de quem teve a ideia de incentivar o desfile em homenagem ao presidente estava implícito o interesse de ajudá-lo a conquistar novos eleitores – esta sexta assessores do Planalto culparam a primeira dama Janja da Silva – o tiro saiu pela culatra. Desde o ano passado, o PT tenta dia e noite atrair os evangélicos e a ala dos conservadores presente na Sapucaí funcionou em sentido contrário: cristãos católicos e evangélicos reproduziram nas redes sociais fotos de suas famílias nas latinhas, em sinal de protesto. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com grande influência entre as mulheres evangélicas, não deixou por menos: “a fé cristã foi exposta ao escárnio” – reclamou.

Lula também vinha, abertamente, buscando atrair o MDB para o seu palanque, inclusive reservando para a legenda a vaga de vice, mas o desfile só atrapalhou. Em encontro com o MDB de Pernambuco no ano passado o presidente nacional da legenda , Baleia Rossi, disse: “há três líderes do MDB em relação aos quais não admitimos qualquer ataque: José Sarney, Michel Temer e Jarbas Vasconcelos”. O que dirá Baleia sobre o assunto ao próprio Lula que deseja chamá-lo para uma conversa sobre aliança em torno da eleição presidencial?.

Vexame e perda

Na verdade, além da vexame de ver a escola rebaixada, Lula só perdeu com o desfile assim como a escola Acadêmicos de Niterói que virou motivo de ação do PL junto ao TSE em que é solicitada a abertura das contas da mesma para tentar descobrir se, além dos recursos públicos que recebeu, foi ajudada por empresas privadas que têm contratos com órgãos federais. Ação do partido Missão no TSE esta sexta cita que dirigentes da escola estiveram com o presidente no Planalto antes do desfile e pedem, assim como o Partido Novo e o PL, que Lula seja punido por propaganda antecipada.

Novas ações devem ser acionadas daqui para a frente e nada indica que o PT vá conseguir fugir de condenações. O próprio TSE, que se recusou a impedir o desfile como pediu o partido Novo, deixou claro, antes mesmo do carnaval, que sua decisão não poderia, como disse a ministra Carmen Lúcia, servir de “salvo conduto” em ações futuras. A própria ministra registrou uma advertência sobre o assunto: “O carnaval é um ambiente muito propício a que haja excessos, abusos e ilícitos. A festa popular não pode ser uma festa para a prática de ilícitos eleitorais”.

Em junho de 2025 em julgamento sobre o uso de festas populares em benefício de pré-candidatos o TSE afirmou que “eventos com grande participação popular e conotação eleitoral, ainda que travestidos de festividades tradicionais, configuram propaganda extemporânea se promoverem pré-candidatos e utilizarem meios vedados”.

Tiro no pé

A cientista política Priscila Lapa diz que “não há dúvida de que a homenagem, que tinha o intuito de exaltar o presidente, findou cimo um grande tiro no pé e acendeu diversas polêmicas. Para os que já eram apoiadores do presidente não fez muita diferença, apenas manteve acesa a agenda emocional de conexão com o lulismo aflorada mas, para quem não é apoiador, foi um prato cheio de toda sorte de problemas que vão desde as questões da legislação eleitoral, às questões morais que em nada ajudam no processo de conversão de votos”.

Segundo ela, “o homenageado fica sempre em uma posição favorável ao ser colocado no centro de uma festividade que é extremamente popular. O problema é quando se tenta misturar política nesses contextos. A sátira política também faz parte do carnaval, da cultura, mas estamos em uma conjuntura sensível, em razão da proximidade das eleições. Qualquer erro cometido traz o risco de viés e de prejuízo à imagem do homenageado”.

Não era pra menos. Lula foi o primeiro presidente que, em vida, virou tema de homenagem de uma escola de samba. Outros não quiseram, não se arriscaram ou não tinham biografia para tanto. Até agora, no entanto, a ousadia de ser primeiro não correspondeu ao esperado. Segundo pesquisa do Real Time Big Data divulgada esta sexta-feira o desfile definitivamente não agradou ao público em geral. Das pessoas ouvidas, 62% afirmaram que tudo não passou de propaganda antecipada e 38% afirmaram que não foi propaganda. Para uma eleição que pode ser decidida por poucos votos o resultado não foi nada agradável para o presidente. Melhor seria ter passado em branco neste carnaval.

Redação com texto de Terezinha Nunes compartilhado do JC em 22/02/2026 Foto: Estadão Conteúdo

e-mail: redacao@blogdellas.com.br

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