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Lula quer unir Pernambuco pela sua reeleição e analisa não vir ao estado no 1º turno

Raquel Lyra e João Campos presentes em agenda de Lula em Pernambuco 

Lula, que disputou inúmeras eleições para presidente, até se eleger três vezes, nunca fez questão de unir Pernambuco em torno do seu nome

Por Terezinha Nunes

Quando pensou em se candidatar a presidente da República contra a então pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, o governador Eduardo Campos procurou o senador Jarbas Vasconcelos, seu arquinimigo no estado, e sugeriu um entendimento entre os dois, sob o argumento de que, como fizera Getúlio Vargas quando foi candidato a presidente e uniu o Rio Grande do Sul, saindo muito forte do seu estado, ele pensava em fazer o mesmo.

O ano era 2012 e a eleição presidencial só seria realizada em 2014 mas Eduardo já trabalhava para se fortalecer e precisava de Jarbas, como conseguiu, para ajudar a eleger Geraldo Júlio, um técnico quase desconhecido, como prefeito da capital, para se fortalecer, eleição em que o petista Humberto Costa ficou em terceiro lugar – o segundo foi Daniel Coelho.

O presidente Lula, que disputou inúmeras eleições para presidente, até se eleger três vezes, nunca fez questão de unir Pernambuco em torno do seu nome. Esteve sempre em um palanque apenas, atacando os adversários entre eles Jarbas que foi injustamente acusado pelo PT de ser contra o bolsa família, perdendo muito votos no interior.

Em 2006, ele testou uma novidade que deu certo. Como os dois candidatos a governador de sua base, Humberto Costa, do PT, e Eduardo Campos, do PSB, não quiseram se entender, ele subiu nos dois palanques no primeiro turno e no segundo levou Humberto a apoiar Eduardo, que saiu vencedor.

Os dois (ou três) palanques

Em junho de 2025, já muito entrosado com Raquel Lyra, para a qual abriu as portas do Palácio do Planalto, Lula surpreendeu em discurso no Congresso do PSB, que consagrou o prefeito João Campos como presidente nacional da legenda, ao se referir aos dois palanques de Pernambuco em 2006 afirmando que é preciso se adaptar às conjunturas dos estados para obter bom resultado nas urnas. O discurso foi logo interpretado, apesar das negativas do PSB, como um sintoma de que o presidente gostaria de ter em seu estado o apoio da governadora e do prefeito do Recife.

Esta semana houve um sinal claro de que Lula ainda está com isso na cabeça. Uma fonte do Planalto fez chegar a Pernambuco a informação , dada em primeira mão pelo Blog de Elielson, de que o presidente estaria disposto a não vir a Pernambuco no primeiro turno, o que seria um sintoma claro de aceno à governadora, já liberada pelo seu partido, o PSD, para apoiar o candidato a presidente que desejar.

A mesma fonte explicou que Lula tem problemas no Ceará e na Bahia e iria priorizar estes estados e lembrou que em 2024 ele não foi ao mesmo Ceará e à Paraíba no 1.o turno porque tinha o apoio de mais de um candidato e não queria se atrapalhar. Só fez fotos mas nem na TV apareceu.

Especulação ou desejo real?

É possível que isso se torne realidade? É difícil saber até porque João Campos e Raquel Lyra vão disputar uma eleição duríssima e precisam aceitar a estratégia. Mas outros sinais apareceram no horizonte depois que o deputado estadual do PT, João Paulo Silva, defendeu não só dois mais três palanques para Lula no estado, incluindo o PSOL que tem como pré-candidato o ex-vereador do Recife Ivan Moraes. Após a fala de João Paulo o presidente estadual do PT, deputado Carlos Veras, se encontrou com Ivan Moraes e depois com João Campos e afirmou estar disponível para dialogar com a governadora.

– Onde tem fumaça tem fogo” – falou a este blog um deputado estadual de linha independente, citando as “inúmeras coincidências” tornadas públicas nos últimos dias, inclusive o fato do governador de Sergipe, Fábio Mitidiere, também do PSD de Raquel, ter declarado apoio à reeleição do presidente esta quinta-feira. Com a manifestação de Mitidiere, que disse ter comunicado o fato ao presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, a governadora pernambucana passou a ser a única no Nordeste a não ter se manifestado até o momento em apoio ao presidente.

Sem margem confortável

A cientista política Priscila Lapa diz que sendo verdadeiras as especulações, Lula teria motivo para ter mudado de opinião e buscar unir o estado em torno do seu nome: “não estamos falando de um presidente que tem uma margem confortável de avaliação positiva do seu Governo e que, portanto, atrai naturalmente um conjunto de forças políticas para o seu palanque. Pelo contrário, o cenário aponta para uma eleição disputadíssima em que a vantagem tem a ver com errar menos”.

Para ela, “ o presidente não pode se dar ao luxo de preterir possíveis aliados, sejam eles naturais por questões partidárias, ou aqueles que são aliados por questões administrativas, como é o caso da governadora. Faz muito sentido que Pernambuco seja tratado por ele como um desses casos especiais, com foco em agregar e não dividir”.

PT inquieto com demora

A demora de Raquel em se pronunciar sobre o assunto tem deixado inquietos os petistas pernambucanos que apoiam sua reeleição. “Ela já podia ter falado alguma coisa ou ter tido uma conversa com Lula sobre o assunto” – revelou um deles a este blog pedindo off.

Na verdade, a governadora teve a conversa reservada com Lula, que estava sendo desejada pelos petistas, antes da solenidade recente no Palácio do Planalto que selou o acordo entre os governos estadual e federal sobre o metrô. O prefeito João Campos e deputados federais estavam presentes mas só durante as assinaturas oficiais do acordo.

Um obstáculo aos dois palanques tem sido enxergada no fato do PT ter um candidato ao Senado do qual não abre mão, o atual senador Humberto Costa, que vai precisar de um palanque e, portanto, ficaria fora do entendimento. O próprio Humberto, na demora de Raquel, já disse que, no momento, a possibilidade maior é a aliança do PT com o prefeito João Campos. Na verdade, ele próprio tem sido alertado pela banda do PT que está na Prefeitura de que o prefeito poderia deixar o partido de lado se a aliança não fosse logo formada.

Fator Humberto e silêncio de Raquel

Essa preocupação demonstra que o PT como legenda só pode apoiar um candidato a governador e não os dois. Uma liderança do partido favorável a João Campos explica que “Raquel não vai fazer oposição ao presidente até porque ele tem ajudado muito ao estado em parceria com ela.” No entendimento desta fonte, a esta altura Lula já está lucrando por ter através da aproximação com a governadora neutralizado, de certa forma, sua postura.

No PT, há interpretação para todos os gostos, dependendo do grupo que está sendo ouvido. Argumenta-se que com a aliança nacional PT/PSB não há como Lula não subir no palanque do prefeito logo no primeiro turno como também se justifica a esperança nos dois palanques com a possibilidade do PSD de Raquel acabar se entendendo nacionalmente com o presidente de cujo governo já participa com três ministros. O fato do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas ter desistido da presidência também contribuiria para isso pois ele já tinha a promessa de apoio de Gilberto Kassab que não vê com bons olhos a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Por outro lado, o silêncio da governadora teria um motivo pelo que se comenta nos corredores da Assembleia. Com dificuldades de entendimento com o poder legislativo, ela precisa dos três votos do PT e dos quatro votos que tem na bancada do PL para derrubar pautas indigestas que venham a ser apresentadas pela oposição. Um aceno agora poderia engordar a bancada oposicionista às vésperas do início da janela partidária quando os parlamentares podem mudar de legenda sem sofrer punição.

Nada como ficar com um olho no padre e outro na missa, como ensina o ditado popular.

Redação com texto de Terezinha Nunes publicado no JC em 25/01/2026 Foto: Ricardo Stuckert

e-mail: redacao@blogdellas.com.br

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